O mercado de crédito privado brasileiro está com um alerta ligado para uma queda nas novas emissões. Embora a queda no volume de novas debêntures tenha sido tímida no primeiro trimestre – 4% na comparação com o mesmo período do ano passado –, a avaliação de gestores entrevistados pelo InfoMoney é que a fraqueza nas emissões deve aumentar e afetar os papéis que já estão nas carteiras dos investidores. Com juros ainda altos e um cenário de aversão a risco desenhado por eventos de crédito importantes nos últimos meses, as dinâmicas de precificação dos ativos devem passar por novos ajustes. Entenda, a seguir, os motivos que explicam a iminente seca no mercado primário e saiba o que os especialistas recomendam para o investidor proteger e rentabilizar sua carteira.Leia também: Estrangeiro segue dando sustentação à B3, mas muda comportamento em abril; entendaO que explica a seca no crédito privado?Das 19 ofertas previstas para abril, oito foram postergadas e três canceladas, destaca a Sparta em sua carta mensal. Entre as realizadas, quatro ficaram com os bancos coordenadores e as outras quatro tiveram distirbuição parcial. Nenhuma oferta foi integralmente distribuída a investidores.O recuo nas ofertas é fruto de uma combinação de fatores técnicos e de calendário. Sami Karlik, gestor de crédito privado da Tivio Capital, explica que o mercado vem de captações recordes nos anos anteriores. “Estimuladas pelos bancos, as empresas aproveitaram antecipar muitas emissões e resolver parte das dívidas que tinham vencendo em 2026 e 2027”. Daniel Palaia, gestor de crédito privado da Asset1, confirma a perspectiva de paralisação e adiciona um componente técnico recente: a dificuldade dos bancos em repassar as dívidas para frente. “Houve um movimento nesses últimos dois meses de muitos papéis encarteirados nas tesourarias, títulos que os bancos não conseguiram distribuir”, relata Palaia. Ele explica que os bancos precisam zerar as posições em emissões passadas antes de pensar em um movimento consistente de lançamentos. Para além do fator técnico, a política também pesa. Nicole Vieira, head de crédito privado da Polo Capital, pontua que “em geral, há uma seca durante o período eleitoral. Então, acho que o volume de emissões no primário será menor esse ano”, projeta. Mayara Rodrigues, analista da XP, complementa afirmando que a recente alta dos spreads (prêmio em relação aos títulos públicos) assusta os emissores, fazendo com que as empresas prefiram “esperar para ver até onde vai e se vai compensar a emissão”.No entanto, Arnaldo Braga, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos, enxerga uma reorganização de forças. “O mercado de capitais tem um movimento secular de substituição dos bancos”, diz ele, avaliando que a queda nas debêntures reflete uma busca por outros instrumentos. “Talvez dentro desse mix do mercado de capitais você veja menos debêntures e mais FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).”Ajuste saudável ou risco?Se a oferta de novos papéis diminui, o impacto imediato ocorre na dinâmica de preços. Para as empresas que precisam rolar dívidas, o cenário é desafiador e perigoso, alerta Vieira. Por outro lado, os investidores têm acesso a papéis com melhor relação entre risco e retorno. Sami Karlik lembra que os prêmios estavam espremidos no ano passado e considera o movimento dos spreads positivo. “Eu acho que esse ajuste é saudável, e mais: acho que ele ainda não terminou. A minha impressão é que ainda tem que ajustar mais”, pontua.2026 começou com as debêntures pagando, em média, CDI + 1,7% ao ano. Em abril, elas já pagavam CDI + 2,2%. Nos papéis atrelados à inflação, os prêmios eram negativos em janeiro e foram corrigidos para 34 pontos-base no mês passado – ou seja, se o título de referência do Tesouro IPCA+ pagava IPCA + 7%, as debêntures entregavam, em média, IPCA + 7,34%. Os dados são da JGP. Para a Sparta, o mercado primário está respondendo aos ajustes de spreads. Em períodos de maior volatilidade, o desalinhamento entre os prêmios dos mercados primário e secundário não é resolvido imediatamente e as ofertas carregam referências de preco defasadas até que um novo equilíbrio se estabeleça explica a gestora em sua carta mensal. “À medida que esse processo avance e o secundário encontre um patamar mais estável, a tendência é que o primário volte a funcionar. Esse ajuste é parte natural do mercado e tende a reabrir o fluxo de emissões”, diz a Sparta.Além das emissões mais fracas, o fantasma dos resgates também deve atuar sobre a precificação do mercado de crédito privado. Quando as taxas sobem, os papéis nas carteiras dos investidores perdem valor, o que pode fazer com que portfólios operem no vermelho. No primeiro trimestre, os fundos entregaram rentabilidade abaixo do CDI, a referência do mercado de renda fixa. Leia também: Fundos de ações no Brasil encolhem em meio ao imediatismo dos investidores“Provavelmente o mercado exigirá taxas mais altas, já que terá gestores mais receosos, sabendo que, quando a carteira vai mal, precisam imaginar que tomarão resgates”, lembra Braga. Os fundos de crédito privado vêm tomando resgates desde o fim de março, quando a Raízen (RAIZ4) entrou com pedido de recuperação extrajudicial. O que fazer agora?Diante do arrefecimento das ofertas e da reprecificação dos títulos no mercado secundário, os especialistas recomendam cautela. Com a abertura dos spreads, alguns fundos de crédito podem resultados abaixo do CDI no curto prazo. Porém, “tomar decisão de crédito com pressa porque houve um mês de cota abaixo do CDI é um erro. É preciso escolher bem o gestor e não ficar saindo”, aconselha Karlik.Fugir de emissões sem boas garantias também é importante no contexto atual, segundo Arnaldo Braga, que quer distância do agronegócio e de dívidas sem quirografárias (sem garantias reais). Segundo ele, o agro terá anos “tenebrosos” por conta de custos dolarizados, problemas climáticos e demanda internacional. “O problema de inadimplência da pessoa jurídica está no seu fim, exceto no agro”, alerta o gestor da Neo.O foco, segundo Mayara Rodrigues, deve estar em qualidade e diversificação. Ela recomenda mirar em empresas com forte previsibilidade de caixa. Para quem decide investir diretamente, a regra de ouro é nunca concentrar o risco. “Na média, a gente recomenda uma exposição de até 20% do patrimônio em crédito privado no total. E individualmente é no máximo 5% em cada emissor”, ensina a especialista.Karlik, porém, faz um alerta contra a compra direta de crédito por pessoas físicas: “não há um potencial de valorização como em ações, por exemplo; no crédito, o potencial é ilimitado, mas a perda chega a 100%. Acho muito arriscado comprar papel direto”, adverte.The post “Seca” de emissões deve causar novo baque em retornos de títulos privados appeared first on InfoMoney.
