O Brasil virou o porto seguro da agricultura mundial. Enquanto guerras e disputas comerciais embaralham as cadeias de suprimento globais, o país colhe contratos que antes iam para outros. Quem explica essa transformação — e como sua empresa está se posicionando para lucrar com ela — é Aurélio Pavinato, presidente-executivo da SLC Agrícola (SLCE3), maior produtora agrícola do Brasil. No episódio mais recente do programa ExpertTalks Na Mesa com CEOs, da XP, apresentado por Fernando Ferreira, head de research da casa, ao lado de Pedro Fonseca, analista de agro, alimentos e bebidas, Pavinato detalhou estratégia, resultados e os próximos passos da companhia em um dos períodos mais turbulentos dos últimos anos.Veja mais: Assessora capta R$ 8 mi na 1ª semana e atrai cliente de R$ 100 mi via redes sociaisE também: MRV (MRVE3): CEO projeta margem maior em 2026 apesar de pressão de custosA tese começa com geografia e geopolítica. Quando a Ucrânia foi invadida, o Brasil se tornou a alternativa para exportar milho. Quando os Estados Unidos entraram em guerra comercial com a China durante o governo Trump, o Brasil assumiu o papel de fornecedor confiável de soja. E com o conflito no Oriente Médio ainda em aberto, o roteiro se repete. “O Brasil está se fortalecendo como sendo um país pacífico, um país que tem potencial cada vez para produzir mais”, disse Pavinato. Ele citou projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos que colocam o país como o principal responsável pelo crescimento da produção agrícola mundial nas próximas décadas.“Até os Estados Unidos têm isso como um norte, que o Brasil vai continuar sendo esse grande celeiro do mundo.”— Aurélio Pavinato, presidente-executivo da SLC Agrícola (SLCE3).Veedha planeja aquisições e disputa clientes ricos com bancõesDavos avança em fusões e cria frentes em M&A, crédito e gestão patrimonialO gargalo que trava o crescimentoMas há um obstáculo que, para o executivo, pesa mais do que qualquer problema tecnológico ou regulatório: a logística. Levar a produção da fazenda até o porto custa muito mais caro no Brasil do que na Argentina ou nos Estados Unidos — e essa diferença corrói a margem do produtor. Para Pavinato, resolver esse gargalo é o caminho mais direto para valorizar o agro brasileiro. “Essa melhoria da infraestrutura logística vai destravar valor, porque esse frete menor vai se transferir para um valor maior do produto na fazenda”, afirmou.As fazendas da SLC, segundo o executivo, funcionam como fábricas que se valorizam com o tempo em vez de depreciar. O preço da terra no Cerrado, hoje entre US$ 10 mil e US$ 15 mil por hectare, ainda está bem abaixo dos 30 mil dólares praticados em regiões comparáveis dos Estados Unidos e da Argentina. Para Pavinato, a aproximação entre esses valores é questão de tempo — empurrada por melhorias na logística, aumento de produtividade e eventual escassez de novas áreas disponíveis.Leia tambémKevin Warsh assume comando do Fed; Datafolha, relatório fiscal e mais destaques hojeInfoMoney reúne as principais informações que devem movimentar os mercados nesta sexta-feira (22)Vender terra para irrigar terraNo ano passado, a SLC deu um passo que ilustra essa lógica com clareza. A empresa vendeu R$ 1 bilhão em propriedades rurais para fundos e usou o capital para instalar sistemas de irrigação nas mesmas fazendas. As propriedades, que antes dependiam exclusivamente da chuva e sofriam com secas, passaram a produzir duas safras por ano. “Ela vai produzir 220% de produtividade ao longo dos anos e vai gerar um resultado muito superior ao que gerava anteriormente”, disse o executivo. A companhia estuda repetir a operação em outras áreas.Em dividendos, a política é distribuir metade do lucro líquido — prática mantida desde 2017. Nos últimos cinco anos, o retorno médio para o acionista ficou em 5,2% ao ano, o que garantiu à empresa um lugar no índice de dividendos da B3, o IDIV. “Dá para prometer a expectativa de continuar sendo um bom pagador de dividendos”, afirmou Pavinato.Irrigação como defesa contra o El NiñoCom a previsão de El Niño para os próximos meses — fenômeno que costuma provocar secas no Nordeste —, a SLC já tomou medidas. A empresa está ampliando sua área irrigada de 16 mil para 53 mil hectares, com ênfase nas fazendas da Bahia, historicamente as mais vulneráveis a esse tipo de clima. A fazenda Piratini, de 18 mil hectares, estará completamente irrigada em agosto. “Essa é a forma que a gente vai mitigar todo esse efeito dos veranicos sobre a nossa operação”, disse o executivo.Por trás de três décadas de crescimento — de 24 mil para 830 mil hectares —, Pavinato aponta um fator que considera mais decisivo do que tecnologia ou capital: a formação de pessoas. Oito em cada dez líderes da empresa foram promovidos internamente. A SLC oferece estágio, programa de trainee, MBA e até ensino fundamental e médio dentro das próprias fazendas — mais de 600 funcionários já concluíram seus estudos por esse programa, e a meta é ter todos os colaboradores com ao menos o ensino fundamental concluído até 2030. “O investimento em formação de pessoas é um pilar estratégico para que as pessoas estejam preparadas para serem promovidas”, disse Pavinato. “Empresas são feitas de pessoas no fim do dia.”The post SLC Agrícola vê Brasil virar fornecedor global em meio a guerras e tarifas appeared first on InfoMoney.
