Série A, B, C, D, IPO bilionário e festa na Nasdaq. A escadinha consagrada pelo venture capital americano virou cartilha mundo afora mas, para investidores reunidos em um painel no Web Summit Rio, insistir nesse roteiro é justamente o que mantém o ecossistema brasileiro preso no inverno que se arrasta desde 2022.Para Marcello Gonçalves, sócio da DOMO.VC, a primavera segue sem data para chegar ao venture capital brasileiro. “Estou me sentindo meio no Game of Thrones. Não estou vendo nenhum raio de sol aparecer, pelo menos até as eleições. Juro a 15%, mentalidade curto-prazista do investidor. O Brasil hoje não está fácil para pensar em negócio de longo prazo, como é o venture capital”, disparou Marcello.De acordo com Marcello, um veterano do mercado local, o país registrou mais fechamentos de capital do que aberturas nos últimos anos. “Sobrou o M&A, e as pesquisas mostram que o valor médio de venda de empresas no Brasil fica entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões. Só que ainda tem muitos players do nosso mercado usando o playbook americano, pensando em série A, B, C e D. Mas quem faz série C e D no Brasil? A série A é difícil, a B é quase impossível, C e D não existem, e o Brasil nem tem bolsa”, emendou, sem papas na língua.Por sua vez, o sócio da Spectra Investimentos, Frederico Wiesel, trouxe um contraponto. No hemisfério norte, parece que a primavera está voltando — ao menos para quem tem IA no pitch. “O inverno veio na América Latina e nos Estados Unidos também. Só que aqui ele persiste, e lá já terminou. Para empresas AI native, faz tempo que não é mais inverno. Lá o vento está soprando muito forte. Mas essa tendência ainda não veio para cá”, pontuou Frederico.Nessa empolgação dos fundos na cena de IA dos EUA, até o Brasil foi colocado em segundo plano. “Conversamos com alguns fundos globais e o que eles dizem é: por que eu deveria me importar (com o Brasil)? Por que se preocupar com a América Latina se tem tanta coisa acontecendo nos Estados Unidos?”, relatou Fred, lembrando que eram justamente esses fundos que bancavam as rodadas de growth por aqui.De fato, o venture capital global bateu recorde histórico no primeiro trimestre de 2026. Foram cerca de US$ 300 bilhões investidos, segundo dados do Crunchbase. Já o Brasil fechou 2025 com US$ 4,5 bilhões captados, queda de 13% em volume e de 22% no número de rodadas — e menos da metade desse montante veio de rodadas de equity.Mesmo assim, a régua dupla já chegou aos valuations locais. “A gente até brinca: se tem IA, é 10 vezes o faturamento; se não tem, é 4”, contou Marcello, que, ainda assim, prega cautela na corrida: “É muito difícil saber o que o Claude ou o ChatGPT vai matar daqui a um mês.”Leia tambémElon Musk virou trilionário. Mas isso faz dele o mais rico da história?Fortuna de dono da Tesla e da SpaceX deve ultrapassar US$ 1 trilhão, mas a comparação com figuras como Mansa Musa, Jakob Fugger e Rockefeller passa por participação na economia, poder político e contexto históricoO jeito brasileiroPara Marcello Gonçalves, uma possível saída para o venture capital brasileiro encontrar a sua primavera não é esperar uma improvável reedição de 2020 e 2021, mas encontrar o seu próprio jeito de investir e, inclusive, ter noção do seu próprio tamanho. “Não faz o menor sentido o Brasil ter 120 fundos de early stage. O modelo brasileiro de blitzscaling não existe, não adianta empurrar dinheiro. O que funciona é crescimento constante, resiliência e margem”, afirmou.Na visão do investidor, o ajuste de rota já começou a aparecer em teses como a da Cloud9 Capital, de cheques maiores por participações maiores logo no early stage. “Entendi o que ele está fazendo: está dando muito mais pista para a empresa andar, sabendo que o futuro é muito duvidoso aqui. O Brasil está descobrindo o seu modelo de VC, que vai ser diferente dos Estados Unidos, de Israel e do México. O mercado está entrando na fase de ajuste, que vai preceder a tal da primavera”, projetou.Conteúdo produzido por Startups.com.brThe post Startups: Para sair do inverno, VC brasileiro precisa “rasgar” o playbook americano appeared first on InfoMoney.
