Quem comprou títulos do Tesouro atrelados à inflação antes do primeiro turno da eleição presidencial viu os papéis se valorizarem até dois dígitos em poucos dias. Nesta semana, porém, as taxas voltaram a subir e parte desse lucro já foi devolvida. Por isso, muitos investidores se perguntam se vale vender agora ou esperar o segundo turno, marcado para 25 de outubro.Os títulos mais longos foram os que mais se valorizaram, com alta de até 13% na semana seguinte à votação. O movimento veio do tombo das taxas de DI no primeiro pregão após o primeiro turno, uma queda que não era vista havia mais de uma década. Como preço e taxa andam em sentidos opostos, o recuo dos juros valoriza os títulos já emitidos, que têm o preço atualizado diariamente pela marcação a mercado.Quanto do ganho já voltouO movimento começou a se inverter logo após o feriado, e as taxas subiram ao longo de toda a semana. Na abertura de sexta-feira (16), o Tesouro IPCA+ 2050 já havia devolvido mais da metade da queda registrada após a votação. Em vencimentos um pouco mais curtos, como o IPCA+ 2040, a devolução era menor. Os prefixados, por sua vez, voltaram ao nível do dia seguinte à eleição, embora ainda bem abaixo das taxas de antes do primeiro turno.A pressão veio principalmente das pesquisas, que mostram uma disputa mais apertada. No Datafolha divulgado na quinta-feira (15), a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) caiu para 2 pontos nos votos válidos. A Quaest e a PoderData/Aya também mostram empate técnico.O exterior e o Congresso também pesaram. Na quarta-feira (14), a inflação ao consumidor dos Estados Unidos acima do esperado levou o rendimento do Treasury de 10 anos para perto do maior nível em mais de duas décadas, e o Senado aprovou a PEC que acaba com a escala 6×1. Na quinta, os rendimentos dos Treasuries recuaram com força, e o cenário doméstico passou a ter o peso maior.Realizar parte do lucroPara a XP, chegou a hora de embolsar ao menos parte do ganho. “Nossa preferência é por uma realização parcial dos ganhos acumulados nos títulos públicos e uma entrada gradual em crédito privado isento high grade”, escrevem os analistas Lucas Genoso e Maria Luisa Paolantoni, em relatório. A casa não recomenda abandonar o risco soberano. Ela também não espera uma reversão da curva de juros nem considera esgotado o espaço para novas quedas.Segundo a XP, a sustentação do movimento depende da evolução do debate econômico nas próximas semanas, em especial das propostas para a política fiscal, da composição da equipe econômica e da trajetória da dívida pública. A venda parcial garante parte do lucro e mantém a exposição a um eventual novo fechamento das taxas.Quem decidir vender deve considerar os custos da saída antecipada. Do resultado são descontados Imposto de Renda, taxa de custódia e, em resgates feitos em até 30 dias, IOF. A diferença entre os preços de compra e de venda do título também reduz o ganho efetivo.Trocar por crédito isentoO destino sugerido pela XP para parte do lucro é o crédito privado isento de emissores com rating entre AAA e AA. O argumento é que, enquanto os títulos públicos se valorizaram, as debêntures incentivadas não acompanharam o movimento e passaram a pagar prêmios maiores.Segundo a Vitrify, o spread das debêntures incentivadas sobre os títulos públicos subiu nas últimas semanas e, entre os papéis AAA, chegou ao maior nível desde o fim de 2024. Enquanto o Tesouro IPCA+ paga perto de IPCA + 6,7% ao ano, há debêntures, CRIs e CRAs isentos que pagam até IPCA + 10,6%.Para Ricardo Ara, gestor da Legacy Capital, alguns emissores incentivados já pagam mais que emissões não incentivadas, o que deve atrair compradores.O prêmio extra, porém, remunera riscos que o Tesouro não tem. Debêntures, CRIs e CRAs não contam com a garantia do FGC, e um calote do emissor pode significar perda para o investidor. A liquidez também é menor, e parte dos papéis está disponível apenas para investidores qualificados.A própria XP pondera que os spreads podem subir ainda mais se os resgates continuarem obrigando os fundos do setor a vender papéis. Segundo a Sparta, os FI-Infra com hedge tiveram um dos piores meses de sua história em setembro, e os resgates voltaram a acelerar em outubro. Por isso, a XP defende uma entrada gradual, que preserve espaço para ampliar a posição caso o prêmio volte a subir.Manter a posiçãoNem todas as casas veem motivo para reduzir a posição. A Monte Bravo, que privilegiou os títulos atrelados à inflação ao longo de 2026, manteve a recomendação em sua carta mensal de outubro, escrita logo após o primeiro turno. “Mantemos os títulos IPCA+ como principal convicção na renda fixa doméstica, dado o nível ainda elevado dos juros reais”, escreve a casa em relatório.Segundo a Monte Bravo, o posicionamento de investidores locais e estrangeiros em ativos brasileiros ainda é leve, o que pode ampliar a reprecificação no curto prazo.Para quem não precisa do dinheiro antes do prazo, manter o título até o fim neutraliza o efeito das oscilações no resultado final. A variação de preço só se transforma em ganho ou perda com a venda, e quem leva o papel até o vencimento recebe a taxa contratada na compra.A mesma sensibilidade que turbinou os títulos longos funciona no sentido contrário quando as taxas sobem. Isso pode gerar perdas expressivas para quem precisar vender antes do vencimento em um momento ruim.Esperar as urnasQuem prefere aguardar o resultado do segundo turno tem no Tesouro Selic a alternativa indicada por especialistas para proteger a carteira da volatilidade. Para a Monte Bravo, os pós-fixados “seguem oferecendo um retorno real atrativo, com baixo risco e liquidez para momentos de oportunidade e volatilidade”, embora a casa tenha recomendado reduzir a fatia na classe em setembro para ampliar a exposição a Bolsa e prefixados.Quem quiser apostar no cenário eleitoral na Bolsa deve manter a aposta pequena. A Privatto Multi Family Office sugere limitar essa parcela a entre 3% e 7% da carteira, conforme o perfil, de preferência em ETFs que replicam o Ibovespa.Depois das urnas, avalia a Monte Bravo, a atenção do mercado deve se voltar para a capacidade do próximo governo de ganhar credibilidade fiscal, com peso para a qualidade da equipe econômica e a execução da agenda.The post Tesouro IPCA+ devolve parte do rali eleitoral: hora de vender ou esperar o 2º turno? appeared first on InfoMoney.
