Os juros americanos não param de subir, e voltaram a renovar as máximas dos últimos 24 anos – mas, apesar da volatilidade, uma janela pode ter se aberto para alocação, ao menos nos trechos mais curtos da curva. A visão é de Marina Valentini, estrategista de mercados globais da JPMorgan Asset Management, que diz que o mercado pode ter pesado demais a mão na expectativa de altas de juros nos Estados Unidos.“Para o investidor brasileiro é chave reconhecer que se abriu uma janela de oportunidade em trechos de curto prazo muito interessante nos EUA, justamente por essa precificação agressiva que vemos no mercado sobre as expectativas de juros do Fed que podem acabar não se materializando”, avalia a estrategista, ao InfoMoney. “Historicamente, o rendimento de entrada explica boa parte do retorno seguinte, e a renda fixa de qualidade americana voltou a pagar perto de 5%. É uma janela estratégica”, afirma.Leia tambémGestores elevam aposta em Brasil, mas apontam 2º turno como gatilho para reduçãoLevantamento da XP com 24 gestoras de multimercados macro mostra Bolsa como ativo preferido e unanimidade por novo corte da Selic, de olho no resultado final das eleições neste mês Rali dos juros após 1º turno supera previsão, e JPMorgan eleva aposta no BrasilBanco passa a recomendar posição em juros locais, mas pondera que as taxas já recuaram com força e que uma queda sustentada depende de um plano fiscal crívelO momento, avalia, é de oportunidade casada tanto na renda fixa quanto na variável, com um superciclo de lucros puxando ações de inteligência artificial. “A exposição global não deve competir com a exposição doméstica, mas vemos muito espaço ainda para o investidor baixar esse viés doméstico e participar do forte crescimento de lucros que tem lá fora”, diz Valentini.A janela se abre justamente quando uma euforia toma conta dos ativos brasileiros depois do primeiro turno, com o Ibovespa chegando a renovar recorde histórico e o dólar a cair abaixo de R$ 5. Mas, para a profissional, o cenário não deveria tirar do radar do investidor o que está acontecendo lá fora, e não redesenhar a carteira a cada rodada de euforia.Ela reconhece que o resultado das urnas, com Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula, e um Congresso mais alinhado à direita, deve deixar ativos locais colados à disputa até o segundo turno. Passada a votação, porém, acredita que o foco vai migrar para as contas públicas de um país com dívida galopante. “As eleições são só o primeiro passo, o mercado vai rapidamente mudar para modo escrutínio, entender quais serão as políticas fiscais, esse será o ponto-chave”, diz.A estrategista lembra que o real perdeu valor frente ao dólar, em média, 3,3% ao ano na última década, tendência sustentada pelo diferencial de inflação com os EUA e por um endividamento maior que o de vizinhos como o México. “A nossa leitura é não tentar extrapolar o que está acontecendo no curto prazo para o plano de longo prazo”, explica.A disparada dos rendimentos dos Treasuries se deve, na sua avaliação, a um “coquetel de fatores”: na ponta curta, pesam o petróleo caro a um presidente do Fed mais duro; na longa, quem puxa é o fiscal e a preocupação com a dívida americana, além da mudança do perfil dos compradores de títulos. Os temas já são conhecidos, mas se retroalimentam, com os juros de 10 anos redobrando atenção às questões fiscais“Estamos entrando num ‘novo novo normal’, e provavelmente precisaremos de juros mais altos do que a década anterior”, diz, em referência à virada de um ambiente de juros artificialmente baixos para um com taxas mais elevadas, para um novo em que eles serão atipicamente mais elevados.No petróleo, Valentini aposta que EUA e Irã voltarão à mesa porque o custo do conflito cresce para os dois lados, e lembra que outros países do Oriente Médio têm conseguido escoar sua produção por rotas alternativas. O mercado deu sinais nessa direção nos últimos dias, quando o petróleo chegou a recuar com dados mostrando exportações da região acima do nível pré-guerra em alguns dias de setembro e com a liberação de estoques estratégicos pelo G7. Mas novas turbulências na região fizeram a commodity subir mais uma vez na quarta. Para a estrategista, as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, estão na lista de possíveis gatilhos para a solução do conflito, mas nada é tão importante quanto a passagem do tempo.Mesmo com esse pano de fundo, a leitura da casa é de que o mercado pesou demais a mão na precificação de alta de juros, que atualmente é de três a quatro novas altas entre este ano e o próximo. A casa vê uma inflação puxada pela energia sem contaminar o restante da economia, e um mercado de trabalho que perde fôlego. Por isso, a avaliação é de que o Fed fará apenas mais uma alta de juro, em dezembro, seguida de pausa em 2027. “Achamos que o pior já passou para a alta de juros e de yields, e na frente vemos uma moderação”, ressalta.A preferência, por gestão de risco, é pelo meio da curva, em vencimentos de cerca de cinco anos, enquanto os papéis longos seguem expostos ao fiscal americano, europeu e japonês e às incertezas do petróleo. “Se você alongar muito o duration (prazo médio), aí não compensaria ainda, mesmo com esse yield (rendimento) mais atrativo”, pondera. Na quarta-feira (7), as taxas de 30 anos atingiram nova máxima desde 2002.Do lado das ações, a estrategista ressalta que os múltiplos ficaram menos esticados do que no início do ano e que as empresas chegam à temporada de balanços do terceiro trimestre, que começa na próxima semana com os grandes bancos, com dívida mais baixa e margens nas máximas. Ainda assim, ela alerta que o índice esconde uma divergência relevante, já que, desde o fim de agosto, praticamente só tecnologia e comunicação subiram. Por isso, defende seletividade, diversificando com bancos de mercados desenvolvidos, que se beneficiam de juros mais altos, indústrias ligadas à construção de data centers e o setor de energia.“Temos um risco de concentração que nunca vimos antes em ações dos EUA. As top 10 empresas representam 40% do índice do [S&P 500]”, alerta, ressaltando que a história é parecida entre emergentes asiáticos. “Qualquer má notícia ou onda de receio à AI, por exemplo, acaba impactando mais o investidor passivo do que aquele que tem uma carteira mais diversificada, com gestão ativa, que pensa com cuidado nesse risco de concentração”, alerta. The post Treasuries subiram demais e janela para investir se abriu, avalia JPMorgan Asset appeared first on InfoMoney.
