“Vão tomar um susto”: Adibe diz que resultados da Cimed surpreenderão o mercado

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“Na hora que forem olhar o nosso relatório desse ano, vão tomar um susto”. A frase foi a resposta de João Adibe, presidente e CEO da Cimed, quando questionado sobre um dos temas que mais acompanharam a farmacêutica nos últimos dois anos: o impacto da estratégia de expansão para novas categorias de consumo sobre a geração de caixa, a rentabilidade e o nível de alavancagem da companhia.A discussão ganhou força justamente quando a empresa decidiu acelerar uma transformação que vai além do mercado farmacêutico tradicional. Conhecida pelos medicamentos genéricos e isentos de prescrição, a Cimed passou a apostar de forma agressiva em categorias como higiene pessoal, saúde bucal, suplementos, cuidados infantis, desodorantes e proteção solar, numa tentativa de ampliar seu mercado endereçável e reduzir a dependência dos medicamentos.A mudança, porém, não passou despercebida pelo mercado. Quando a farmacêutica anunciou que passaria a disputar espaço em segmentos dominados por gigantes globais de consumo, como Unilever e P&G, surgiram dúvidas sobre a capacidade de a companhia sustentar o ritmo de investimentos sem pressionar sua estrutura financeira. Em meio a esse movimento, a Fitch rebaixou a nota de crédito da Cimed de AA+ para AA, apontando aumento da exposição a mercados mais competitivos e perspectivas de rentabilidade diferentes das observadas historicamente no negócio farmacêutico.Em entrevista exclusiva ao InfoMoney Entrevista durante a B55 Conference, Adibe disse que parte da reação decorreu da dificuldade de investidores e analistas em avaliar uma empresa que deixou de ser apenas uma farmacêutica para se tornar uma companhia de consumo e saúde. Segundo o executivo, as comparações passaram a ser feitas com parâmetros inadequados para o novo momento da empresa.Ele defendeu a estratégia adotada pela Cimed, afirmou que a geração de caixa da companhia avançou ao longo de 2026 e reiterou que os investimentos realizados nos últimos anos estão sendo executados conforme o planejado.Leia mais: Carmed vira ‘Flavy’ em primeira empreitada internacional da CimedPor fim, reconheceu que 2026 não foi um ano de crescimento de rentabilidade, o que atribui ao fato de a capacidade produtiva da divisão farmacêutica estar próxima do limite e da margens no segmento de consumo serem baixas. Ainda assim, garantiu que os resultados financeiros devem surpreender o mercado.Leia, abaixo, trechos editados da entrevista com João Adibe, presidente e CEO da Cimed.IM: Ano passado saiu uma notícia sobre uma dívida bruta de R$ 1,9 bilhão, sugerindo que a Cimed gastava muito. O que mudou de lá para cá?Adibe: A empresa decidiu disputar um mercado muito maior e, ao fazê-lo, é preciso investir. Senão, não funciona. Na hora que olharem o nosso relatório desse ano, vão tomar um susto. O ano não acabou ainda, mas quando apresentarmos os números financeiros, o pessoal vai se assustar. Aquilo que eu plantei, que eu falei, eu executei.Quando você se apresenta ao mercado como indústria farmacêutica, está comparando limão com limão. Quando vai comparar limão com Coca-Cola, a diferença é completamente diferente. Quando você entra numa categoria onde as margens são diferentes da margem de medicamento, que era o que a gente trabalhava até então, o mercado produz uma visão. Mas mostramos o nosso desempenho na prática. O mercado teve uma visão diferente, mas mostramos na prática.IM: 2026 foi um ano de geração de caixa forte?Adibe: Geração de caixa muito forte, mas com pouco crescimento. Porque a minha capacidade produtiva de medicamento está no talo, não consigo crescer. E, nas áreas de consumo, o consumidor busca o produto mais acessível. Então aumenta a unidade, muita volumetria, consigo manter a margem, mas não consigo ter produtos de alta margem para comprovar o crescimento. Esse é o Brasil de hoje. São poucos que vão crescer nesse ano de muita dificuldade, mas também de muito aprendizado. É aí onde realmente mostra quem tem poder de criar na hora que está difícil.IM: Vocês receberam um downgrade da Fitch, de AA+ para AA. Um dos argumentos é que passam a competir com Unilever e P&G. Por que fazer isso?Adibe: Foi o tamanho desses concorrentes, que representam 80% do mercado. Mas ainda assim é um mercado muito maior do que o que eu tenho. Hoje o mercado pharma que disputo é de R$ 200 bilhões, mas eu só disputo R$100 bilhões – não trabalho com o segmento de medicações que exigem receita. A indústria farmacêutica vive de quebra de patente e a patente não está na minha mão, então como eu cresço na velocidade que eu quero, sem ter mais molécula para desenvolver? Foi aí que decidimos criar essa nova empresa de consumo. A Cimed vai fazer 50 anos em 2027. Quando essa empresa for centenária, será que ela vai ser essa P&G brasileira? É a nossa nova narrativa.IM: Vocês criam uma marca por ano. A Super foi lançada em 2026. Qual o próximo lançamento? Adibe: Sempre criamos uma marca por ano. O ano passado foi João & Maria, esse ano foi a Super, com Oral Care e Desodorante. E agora vamos com a Bronzy, a primeira linha de bronzeador com proteção solar. Eu brinco e falo para todo mundo: o brasileiro é do protetor solar, o brasileiro não é do bronzeador. E sempre com o DNA do acessível. Não quero ser o primeiro preço, mas também não quero ser o último. Quero ser aquele preço que é a fast fashion do setor.IM: O Nizan Guanaes disse que você colocou a família na caixa, isto é, que pensamos na sua família quando lemos o nome da Cimed. Esse foi um movimento calculado de aumento de popularidade e identificação para poder entrar no segmento de personal care?Adibe: Se você perguntar cada um tem um protagonismo. A Charlotte, de 7 anos, o João Pedro, de 11, a Bruna, de 24. É bom você ter uma família grande – você tem vários personagens. Vai da criança de 7 anos à jovem de 24. O Nizan dispensa apresentação, ele fala que a família está dentro da caixinha do remédio. Na hora que puxa, puxa a família junto. Todo mundo tem seu protagonismo, todo mundo é personagem do produto e usuário do produto. Conseguimos, através desse modelo, promover os nossos produtos.IM: Vocês se inspiram em alguém?Adibe: Quando olho as empresas, vejo a Ambev como modelo pela cadeia de distribuição que ela tem, que é o que eu tenho hoje. Vejo a Virgin, do Richard Branson, como um negócio completamente disruptivo – ele vai de uma gravadora a uma companhia aérea, a uma empresa de telefonia. Quando pego os players nacionais, tem a Natura, O Boticário, que criaram grandes marcas. Existe uma dificuldade de lembrar quais são os produtos, mas tudo que compra deles tem qualidade. Vou pegando um pouco de cada um e jogando na receita da Cimed.Como eu brinquei: quero ser a fast fashion do mercado farmacêutico ou do mercado de consumo, para trocar a coleção muito rápido. A indústria farmacêutica é muito tradicional. No consumo, se a gente não for muito rápido, perde o hype.IM: Quanto as bets afetaram a Cimed?Adibe: É muito dinheiro e isso bateu no bolso da Cimed. Junta juros altos, aceleração de algumas categorias através das canetas, que também desaceleraram várias economias. Foi uma somatória de coisas. Ao mesmo tempo tem o faturamento. É aí onde a gente tem que ficar atento.IM: Você foi vocal contra a publicidade massiva de bet?Adibe: Eu falo muito pela minha pessoa. Não sou um cara de jogo. Não gosto. Se me convidar para jogar baralho, não jogo. Não gosto. E entendo que tudo que você faz em excesso é prejudicial – até o próprio esporte. Mas é difícil julgar. A partir do momento que está regulamentado e é direito de todos, a gente não tem controle. IM: Você vai patrocinar todos os times do Brasil além do Palmeiras?Adibe: Não pode confundir o CNPJ com o CPF. João Adibe é palmeirense. CPF é o João Adibe de camisa do Palmeiras. A Cimed é de todos. Queremos que a Super seja o produto oficial de consumo do futebol brasileiro. Não tem nada melhor do que estar com todos os clubes dentro desse ecossistema. Já temos Palmeiras, Cruzeiro, Botafogo, e tratativas com times muito grandes. Todo mundo gostou da ideia. Não foi um momento de oportunismo [com a proibição das bets]. Já falávamos disso. Quero criar produtos com os clubes e, através desses produtos, os clubes serem remunerados por essa torcida apaixonante.IM: Para fechar: fusões e aquisições. Vocês estão estudando?Adibe: O momento é complicado no Brasil. Ruim. Se você vai fazer um valuation a longo prazo, te jogam lá para baixo. O momento é complexo. Mas é aí onde vêm as oportunidades. Compramos uma empresa no ano passado, assumimos esse ano, continuamos o nosso ritmo. Aquele storytelling que foi plantado e não foi só falado numa matéria de jornal – trago o investidor, invisto na planta, abro o depósito, compro a empresa, lanço o produto. Executamos tudo o que falamos. Eu podia usar a maior desculpa do mundo, mas fui na direção oposta. Porque é aí onde a gente cria asa, prateleira, se aproxima do consumidor. Na hora que o Brasil decolar de novo, eu já estou em outro patamar. Não vou ficar esperando. Eu já tenho 54 anos.The post “Vão tomar um susto”: Adibe diz que resultados da Cimed surpreenderão o mercado appeared first on InfoMoney.

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