O cenário de projeção macroeconômica global e doméstica mudou, e não é só a guerra que está causando impactos nas expectativas de inflação e juros para o ano. Estão pensando na conta também o desempenho da economia no primeiro trimestre, as medidas de estímulo do governo, o El Niño, e fatores globais como investimento pesado em Inteligência Artificial e a retomada da agenda protecionista dos Estados Unidos.Diante deste cenário, bancos e gestoras de investimento estão refazendo as contas e estimando que a taxa básica de juros, a Selic, deve terminar o ano em até 14,25%, com espaço de apenas mais um corte. Outras vêem espaço para dois cortes de 0,25 pontos-base, uma projeção bem diferente daquela espelhada no primeiro Boletim Focus do ano, em que a Selic ao fim de 2026 era projetada em 12,25%. Atualmente, a Selic está em 14,5%.O Boletim Focus desta semana já reflete essa postura mais defensiva, elevando a mediana das expectativas da Selic para 13,50% no fim de 2026, com o IPCA avançando para 5,11% neste ano e 4,03% em 2027. Cenário externo: choque de oferta e reprecificação de jurosA economia global também está impactando as projeções de juros e inflação no Brasil. O conflito no Oriente Médio, especialmente as restrições no Estreito de Ormuz, seguem sendo um vetor de risco altista para energia e cadeias produtivas, não só porque limitam a oferta atual de petróleo, mas também porque o prolongamento do conflito faz com que aumentem as chances de danos nas infraestruturas produtoras de petróleo, o que não irá se recompor facilmente mesmo com o fim da disputa.A XP ressalta que, além do petróleo, os pesados investimentos globais em inteligência artificial têm gerado gargalos e pressionado os custos de componentes tecnológicos em todo o mundo. Simultaneamente, a retomada da agenda protecionista nos Estados Unidos, com possíveis novas tarifas de importação, amplifica os custos globais. Esse cenário afeta diretamente as decisões dos bancos centrais. Nos Estados Unidos, o payroll mostrou a criação de 172 mil postos de trabalho em maio, número acima das expectativas e que acendeu um alerta para um possível aumento de juros por lá, destaca José Raymundo Faria Junior, diretor da Wagner Investimentos, que usa a expressão “aspirador de dólares” para ilustrar a fuga de capital estrangeiro do Brasil. Para Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, o ajuste da curva de juros é uma “reprecificação necessária” diante de um ambiente global com “inflação mais persistente, déficits fiscais elevados e aumento dos riscos geopolíticos”. Segundo ele, a elevação das taxas reais indica que o mercado passou a incorporar juros neutros mais altos diante da “piora da dinâmica fiscal global”. Resiliência doméstica: orçamento, mercado de trabalho e El NiñoNo Brasil, os fundamentos apontam para uma inflação de serviços resistente, impulsionada por um mercado de trabalho apertado, com o desemprego recuando para a faixa de 5,5% a 5,8%. O PIB do primeiro trimestre confirmou o aquecimento da atividade, avançando 1,1% na margem, o que levou instituições como Itaú e BNP Paribas a elevarem suas projeções de crescimento para 2,1% e 2,3% em 2026, respectivamente. Esse dinamismo, no entanto, é impulsionado por estímulos do governo, mantendo o impulso fiscal elevado e evitando melhoras nas contas públicas. A XP e o BNP Paribas estimam que programas como o novo Desenrola e as linhas para renovação de frotas representam um pacote de até R$ 200 bilhões.O Bank of America (BofA) reforça essa leitura, pontuando que a atividade econômica “permanece sustentada por estímulos fiscais e de crédito contínuos”, o que tem adiado o ajuste necessário na demanda. Em relatório, o banco analisou o PIB do primeiro trimestre e classificou a composição como “pouco convincente”, observando que a recuperação dos investimentos (3,5%) parece mais influenciada por políticas públicas do que indicativa de uma reaceleração estrutural duradoura. Para a 4intelligence, esses estímulos fiscais e creditícios ocorrem em um momento no qual a economia já opera acima do seu produto potencial. Pelo lado da oferta doméstica, o clima impõe riscos severos. A maior probabilidade de um El Niño severo em 2026 levou as instituições a revisarem a inflação de alimentos. O BNP Paribas, por exemplo, elevou sua projeção de alimentação no domicílio para 8,5% em 2026 e 7,0% em 2027, incorporando o risco de secas no MATOPIBA (sigla referente aos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e chuvas excessivas no Sul. O Itaú revisou o IPCA para 5,4% em 2026 e 4,5% em 2027, e a XP subiu suas estimativas para 5,5% e 4,2%, respectivamente.Leia também: Além da guerra, El Niño é outra fonte de pressão sobre safras e inflação no BrasilA deterioração da dinâmica de preços motivou alertas do BofA, que destacou a aceleração do núcleo médio da inflação de serviços para 6,2% ao ano. David Beker, chefe de economia para o Brasil do banco, ressalta que “riscos adicionais de alta decorrentes de choques como o El Niño e a mudança para o turno de trabalho de 6×1 ainda não foram incorporados”, mas já apontam para uma maior inércia e persistência da inflação no futuro. Limites para cortes do CopomCom a desancoragem das expectativas, o mercado aposta em uma postura conservadora do Comitê de Política Monetária (Copom), com espaço reduzido para cortes nas reuniões de 16 e 17 de junho. SelicIPCABofA14,255,09Genial14,255,3XP145,3Pine145,6BNP Paribas145,6Itaú13,55,4Boletim Focus13,55,11A Genial Investimentos e o Banco Pine defendem a interrupção do ciclo desde já, estacionando a taxa em 14,00%. A XP projeta apenas duas reduções de 0,25 ponto percentual, encerrando o ano também em 14,00%. Já o BNP Paribas prevê um corte de 0,25 ponto em junho e uma pausa prolongada até dezembro, enquanto o Itaú estima a Selic terminal em 13,75%. A 4intelligence alerta para a probabilidade de encerramento do ciclo antes do patamar de 13,50%. Engrossando o caldo das revisões institucionais, o BofA alterou sua projeção para a Selic no fim de 2026, saltando de 13,25% para 14,25%. A casa prevê “apenas um último corte de 25 pontos-base em junho, seguido por uma pausa prolongada até meados de 2027”, retomando o afrouxamento apenas em conjunto com o Fed. Para Beker, as condições financeiras restritivas e o real mais fraco limitam a margem de manobra. “O patamar para novos cortes tornou-se significativamente mais alto, consistente com o retorno a um contexto de inflação mais elevada por um período prolongado”. The post Selic em até 14,25%? O que mudou no cenário de juros, inflação e orçamento para 2026 appeared first on InfoMoney.
