Sites oferecem simulação de compras para gerar sensação de prazer, mas há riscos

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O consumidor abre o site, escolhe o produto, faz o “pagamento” e vê o tempo que vai levar a entrega. Só que nada foi cobrado e nem vai chegar em sua casa. Essa é a proposta dos “sites de dopamina”, plataformas que simulam experiências de consumo sem que nenhuma transação aconteça de verdade.A promessa, feita pelas próprias plataformas, é a liberação de dopamina, neurotransmissor que muitos costumam associar diretamente ao prazer. A definição, porém, é mais profunda.— A dopamina não é simplesmente um neurotransmissor do prazer, como é muito dito. Ela é de antecipação do prazer. Então o procurar já é, por si só, algo inerente ao ser humano — explica Renato Villela Gallo, neuropsicólogo e pesquisador do Programa Ambulatorial dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).A tendência dos sites de dopamina nasceu na Coreia do Sul e já coleciona formatos variados. Um deles é um shopping virtual onde nada existe e que dá para criar conta, encher o carrinho e simular o pagamento. Nas prateleiras virtuais aparecem produtos que fogem da realidade, como máquina do tempo e itens que prometem resolver problemas impossíveisOs coreanos também usam imitações de aplicativos de delivery, em que o usuário escolhe restaurante e pratos, adiciona itens ao carrinho, faz um pagamento fictício e acompanha o deslocamento de um entregador no mapa. No final da transação, o site informa até o valor economizado com a “compra” e quantas calorias deixaram de ser consumidas com o “pedido”.Leia tambémExercícios, rações e suplementos: mercado pet inova para combater obesidade em cãesDoença reduz a expectativa de vida dos cães em cerca de dois anos, além de poder levar a problemas respiratórios e doenças metabólicasA Coreia do Sul já tem até uma “sala de fumantes virtual”. O usuário entra sem cadastro, recebe um apelido anônimo e “acende” um cigarro digital, que passa a queimar na tela com direito a som e desenho de fumaça.Carrinhos cheios sem compraO comportamento de simular compras, porém, não nasceu com os sites de dopamina. Victor Azevedo, reitor do Ibmec Rio, aponta que esse hábito já acontecia nas plataformas de comércio eletrônico verdadeiras:— A geração Z (nascidos entre 1997 e 2010), e até outras gerações, tem o hábito de colocar vários itens no carrinho e, muitas vezes, não concluir a compra.Para Karine Karam, professora do hub de Trade Marketing da ESPM, os sites de dopamina não inventaram nada, mas só descobriram que dá para oferecer prazer sem entregar o produto.— O objetivo não é vender, mas reproduzir a sensação psicológica da antecipação da recompensa, que é um dos principais gatilhos para a liberação de dopamina no cérebro.A versão brasileira e o que ela pede em trocaOs sites de dopamina não são uma exclusividade da Coreia do Sul. O Brasil já conta com uma espécie de shopping virtual de vendas simuladas.O EXTRA navegou por uma dessas plataformas já em operação no Brasil e simulou uma compra. O site se apresenta como uma “válvula de escape financeira segura”, indicada para o controle da oniomania — transtorno de compras compulsivas. Na página, há uma promessa de que o usuário sinta “toda a emoção do checkout e acompanhamento de entregas” sem acúmulo de dívidas ou comprometimento da saúde mental.Os produtos vão de fone bluetooth à cafeteira e miniprojetor, com simulações de comentários e de avaliações de até cinco estrelas. Os usuários podem escolher cor e tamanho dos itens das simulações de compras.Um ponto de atenção, no entanto, está no fechamento da compra. Para concluir a simulação de transação, a plataforma pede nome completo, CEP, endereço e telefone do usuário.— Quando a coisa é de graça, o produto é você. Os dados são a coisa mais valiosa que qualquer pessoa possui. Talvez os consumidores estejam vendendo suas informações pessoais por só um pouco de dopamina — explica o especialista Victor Azevedo, do IbmecO site também apresenta opções de pagamento por Pix, cartão e boleto. Ao ler o QR Code do Pix, aparece uma cobrança real, no nome do criador do site, com o valor em aberto para o usuário digitar. Victor enxerga risco nesse tipo de transação:— O consumidor faz todo o processo de compra e, quando chega o QR Code, ele pode capturar seus dados. É uma queda de segurança absurda sem o site te dar nada em troca.Leia tambémPossibilidade de tarifaço vira cabo de guerra entre Lula e Flávio antes das eleiçõesDecisão do governo americano pode ser tomada nesta quarta-feiraNa versão brasileira dos sites de dopamina, há ainda uma seção que redireciona para uma imitação de bets, plataforma de apostas esportivas. Nesse caso, o usuário pode fazer apostas, mas o site não apresenta a etapa de simulação de pagamento.O EXTRA não conseguiu o contato do responsável pela plataforma até a publicação desta reportagem.Disputa de atenção do consumidorOs sites de dopamina expõem uma disputa mais ampla entre as plataformas de comércio eletrônico reais: a de tempo e de atenção.Para Karine Karam, professora do Hub de Trade Marketing da ESPM, o fenômeno revela uma virada na lógica do consumo digital. Se antes o objetivo das plataformas era transformar visitas em vendas, hoje muitas disputam tempo, atenção e engajamento.— A experiência de navegar passa a ter valor econômico mesmo quando nenhuma compra acontece — avalia a especialista. — A novidade não é a dopamina, que sempre fez parte da compra. A novidade é perceber que algumas plataformas produzem essa sensação de recompensa mesmo sem nenhuma compra.O economista Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), observa que essa lógica emocional já circulava por aqui antes dos sites de dopamina.— Há aplicativos de marketplaces reais repletos de jogos e de roletas para girar. Eles estão o tempo todo trabalhando com o lado emocional do consumidor — avalia Kanter. — Mas existe uma questão ética importante. Essas plataformas vêm compreendendo cada vez mais os gatilhos emocionais do consumidor e, com isso, podem estimular comportamentos compulsivos.Menos tempo de decisãoEm meio à disputa por atenção do consumidor, a redução do tempo de decisão é uma estratégia nesse mercado. Victor Azevedo, do Ibmec Rio, afirma que acelerar o momento em que a pessoa pensa antes de comprar é uma prática das plataformas de comércio eletrônico reais.— Eu estava com a minha turma mostrando o processo de venda em e-commerce, e fui só dar um exemplo dentro da Amazon de uma compra da Alexa. Acabei comprando o produto sem querer por meio da ferramenta Comprar Agora. A plataforma já tem os seus dados. Você vai lá, clica, e compra em segundos — conta.O especialista explica que os marketplaces trabalham com o que chama de “régua de comunicação”, uma automação que reage a cada gesto do consumidor dentro do carrinho.— Por que eu vou receber um cupom de desconto? A resposta é que, se o consumidor botar algo no carrinho e não comprar, a plataforma de comércio eletrônico entende que existe a intenção de compra, mas faltou alguma oportunidade financeira para o usuário — diz.Já quem compra recebe, na sequência, ofertas de um produto complementar, segundo Victor. Em ambos os casos, o carrinho já interpretou o comportamento do consumidor, com ou sem pagamento. Essa leitura ágil pode ser muito útil para reduzir o tempo de decisão em compras.Terapia ou armadilha?A versão brasileira dos sites de dopamina também se vende como redução de danos para quem compra demais. O neuropsicólogo Renato Villela Gallo reconhece que pode haver um alívio — o consumidor evita o gasto —, mas aponta riscos de consequências para a saúde:— É como quem está em recuperação ir ao bar e pedir só água. O ambiente é o mesmo, as pessoas são as mesmas, a vitrine de bebidas é a mesma. Isso tende a aumentar o risco de recaída.Segundo ele, a compulsão por compras físicas não desaparece, mas apenas é transferida para uma compra fictícia, repetida pela tela, o que pode configurar uma dependência digital. Com o tempo, o cérebro exige cada vez mais estímulo para o mesmo prazer.O grupo mais exposto, diz o pesquisador, são os adolescentes, sobretudo entre 15 e 18 anos.Leia tambémGoverno de SP faz operação contra créditos falsos de ICMS em fraude de R$ 3,8 biMandados são cumpridos em quatro cidades paulistas e duas do Paraná; investigação aponta que escritórios de advocacia e consultorias ofereciam créditos tributários irregulares a centenas de empresas— É uma faixa etária documentada como a mais vulnerável, principalmente pela imaturidade do córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisão e pelo freio inibitório. A busca pelo prazer é muito mais desenvolvida do que o freio cognitivo — explica.Dicas para reduzir o uso de telasPara quem sente que o comportamento saiu do controle, o neuropsicólogo indica primeiro medidas de redução de uso, o chamado detox digital: estabelecer limites de tempo de tela, definir em quais cômodos da casa o celular será usado e condicionar o uso ao cumprimento de tarefas e objetivos do dia. Ele recomenda ainda substituir parte do tempo on-line por atividades que ocupem esse espaço, como atividades físicas:— O exercício físico traz outros benefícios, como melhora do controle cognitivo, do sono e de diversas outras situações que podem competir diretamente com o uso alto de telas.O especialista também recomenda como caminho a terapia.— A terapia cognitivo-comportamental é a mais indicada. Ela traz técnicas voltadas para melhorar a qualidade do tédio, para a diminuição da ansiedade e para a regulação emocional, que aumentam o risco desse tipo de comportamento — sugere.Como buscar apoio psicológicoPessoas que enfrentam por dependência tecnológica podem encontrar ajuda por meio dos seguintes órgãos e iniciativas públicas de apoio à saúde:Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — a porta de entrada pode ser uma Unidade Básica de Saúde, Clínica da Família ou Centro Municipal de Saúde, que faz a primeira avaliação e encaminha para a Rede de Atenção Psicossocial. Os CAPS são indicados em casos de sofrimento mais intenso e dispensam agendamento; os CAPSi atendem crianças e adolescentes, e os CAPS III funcionam 24 horas para situações de crise. Confira a lista de Clínicas da Família e CAPS do município do Rio clicando aqui.Instituto Delete — ligado historicamente ao Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atende casos de uso excessivo e dependência de celular, internet, redes sociais e jogos. A instituição disponibiliza atendimento gratuito e aberto ao público; como os horários mudam, vale confirmar antes. O contato pode ser feito pelo e-mail contato@institutodelete.com.Programa de Transtornos do Impulso, o Pró-Amiti — o Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) faz triagens para maiores de 18 anos. Ao todo, são 18 sessões semanais de psicoterapia em grupo on-line. Os interessados podem entrar em contato pelo WhatsApp no número (11) 99004-6247 e no e-mail: proamiti.secretaria@gmail.com.The post Sites oferecem simulação de compras para gerar sensação de prazer, mas há riscos appeared first on InfoMoney.

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