Brasil no urso, EUA no touro: o que pode mudar o jogo no 2º semestre

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O jogo virou em poucos meses. No início de 2026, o Ibovespa chegou a acumular alta superior a 20% e deixou para trás os principais índices americanos. Agora, a fotografia é outra: a Bolsa brasileira devolveu boa parte daquele avanço, enquanto S&P 500 e Nasdaq voltaram a ganhar força em Wall Street.A inversão levanta uma questão importante para o restante do ano: essa vantagem americana tende a continuar ou o Brasil ainda pode voltar ao jogo?Os analistas ouvidos pelo InfoMoney veem razões para Wall Street continuar apresentando fundamentos relativamente mais favoráveis no curto prazo. O crescimento dos lucros, os investimentos em inteligência artificial e o alívio recente com a inflação dão sustentação ao mercado americano.Isso, porém, está longe de significar um caminho livre para novas altas. As ações americanas negociam a múltiplos elevados, e os índices estão cada vez mais concentrados nas gigantes de tecnologia, aumentando o impacto de qualquer decepção.No Brasil, a equação é quase inversa. O Ibovespa está mais barato, mas carrega juros reais elevados, incerteza eleitoral e preocupação fiscal. Para transformar desconto em valorização, o mercado ainda procura um gatilho capaz de trazer o dinheiro de volta.Bruno Marin, analista CNPI, resume essa assimetria: “O Brasil paga caro pela incerteza que carrega, os Estados Unidos cobram caro pela certeza que prometem.”É justamente o que torna o segundo semestre menos óbvio do que o desempenho recente das Bolsas sugere. Wall Street precisa continuar entregando o crescimento que já está embutido nos preços. O Brasil, por sua vez, precisa começar a oferecer motivos para que investidores voltem a assumir risco.Leia tambémEstrangeiros retiram R$ 12 bi da B3 em só 7 pregões de agosto e acendem alertaO volume já coloca agosto como o segundo mês com maior saída de recursos estrangeiros da B3 em 2026, atrás apenas de maio, que registrou retirada de R$ 14,91 bilhõesWall Street ainda larga na frente no segundo semestrePor enquanto, os Estados Unidos chegam à segunda metade do ano com mais argumentos para sustentar um desempenho relativo melhor.Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca que a recuperação das ações americanas não depende apenas da expectativa sobre os próximos passos do Federal Reserve. Há também um componente concreto: crescimento dos lucros, especialmente em tecnologia, e investimentos cada vez maiores na infraestrutura necessária para a inteligência artificial.Os dados mais recentes de inflação ajudaram a completar essa combinação ao diminuir o risco de um novo aperto monetário imediato nos Estados Unidos.Para Lima, Wall Street ainda possui fundamentos melhores para sustentar o desempenho relativo no segundo semestre. Isso não significa, contudo, que os índices possam subir indefinidamente. Valuations elevados e o comportamento dos Treasuries limitam o espaço para uma expansão indiscriminada dos múltiplos.É justamente aí que aparece uma das diferenças em relação ao Brasil. Enquanto o investidor encontra nos Estados Unidos crescimento de lucros e uma tese estrutural ligada à IA, a Bolsa brasileira oferece preços mais baixos, mas acompanhados de juros reais elevados, desaceleração econômica e um prêmio político crescente.“A Bolsa pode continuar barata por bastante tempo, porque valuation baixo, sozinho, não gera fluxo”, afirma Lima. Eleição pode definir o rumo do Ibovespa até outubroNo Brasil, parte importante da resposta sobre o que pode acontecer, principalmente até o final do ano, passa por uma data já marcada no calendário: a eleição presidencial de outubro.Marin avalia que a disputa ganhou peso crescente na formação dos preços desde o fim de julho, quando pesquisas e movimentações políticas passaram a provocar reações mais evidentes nos mercados.“Desde o fim de julho, o fator dominante passou a ser a eleição de outubro, com os pregões reagindo pesquisa a pesquisa”, afirma. Mas o interesse dos investidores não termina na contagem dos votos.Por trás do risco eleitoral está uma questão mais profunda: qual política econômica surgirá depois das urnas e, principalmente, o que acontecerá com as contas públicas.A trajetória fiscal influencia diretamente as expectativas para dívida, inflação, câmbio e juros. Por isso, uma sinalização capaz de melhorar a percepção sobre as contas públicas poderia reduzir o prêmio exigido para investir no País e mudar também a forma como a Bolsa é precificada.Marin considera o ajuste fiscal uma condição importante para que os juros reais possam ceder de forma sustentável e o Ibovespa volte a negociar mais próximo de sua média histórica.João Tonello, analista da Nomos, também coloca a definição eleitoral entre os eventos capazes de diminuir o prêmio de risco político.Isso não significa que a incerteza acabará em outubro. Depois da eleição, a atenção simplesmente tende a mudar de lugar: sai a pergunta sobre quem vencerá e entra a avaliação sobre o que o vencedor fará.Por isso, eleição e fiscal acabam convergindo para outra variável decisiva para o Ibovespa: os juros.Gestores globais reduzem exposição ao real com medo da eleição no BrasilMercado vê Lula favorito e reduz ainda mais alocações em Brasil antes das eleiçõesFiscal e Selic são os gatilhos para o Brasil voltar ao jogoA expectativa de queda da Selic foi um dos combustíveis da valorização da Bolsa brasileira no começo do ano.Quando investidores passaram a enxergar juros menores à frente, aumentou também a disposição para assumir risco em ações, especialmente nas companhias mais sensíveis à atividade doméstica.Esse roteiro, porém, perdeu força ao longo dos últimos meses.Lima observa que o mercado passou a trabalhar com um ciclo de cortes mais curto do que imaginava anteriormente. Ao mesmo tempo, desaceleração econômica, condições de crédito mais apertadas e aumento das preocupações fiscais tornaram a Bolsa brasileira menos atraente.Além disso, o juro elevado cria uma dificuldade adicional: a concorrência vem de dentro de casa.Com juros reais muito altos, títulos de renda fixa oferecem retornos relevantes sem que o investidor precise assumir o mesmo risco das ações. Isso dificulta uma migração mais estrutural do investidor doméstico para a B3 e aumenta a dependência da Bolsa em relação ao estrangeiro.E foi justamente o estrangeiro que começou a mudar de direção. Tonello avalia que boa parte do dinheiro internacional que entrou no Brasil no primeiro semestre tinha caráter oportunista, beneficiado pela rotação global para mercados mais baratos.“O problema é que esse capital nunca foi estrutural — era tático, e dinheiro tático sai tão rápido quanto entra”, diz. Na avaliação do analista, um ciclo mais agressivo de cortes da Selic poderia ajudar a destravar novamente a procura por ações brasileiras.O cenário mais favorável para o Ibovespa, portanto, envolveria uma combinação: fiscal mais confiável, juros com espaço para cair e retorno do capital estrangeiro.Mas essa última peça não depende apenas do Brasil. Depende também do que acontecerá do outro lado da comparação.Leia tambémBalanços surpreendem ou decepcionam: 6 ações que dispararam ou tombaram no 2º triAlpargatas, Fleury e Embraer avançaram após os resultados, enquanto Marcopolo, Lojas Renner e Usiminas sofreram fortes quedas; veja os principais suportes e resistênciasIA e lucros ainda sustentam os EUA — mas até quando?Se o Brasil precisa encontrar um novo catalisador, os Estados Unidos têm outro desafio: manter funcionando aquele que já possuem.A inteligência artificial continua no centro da valorização de Wall Street.Marin destaca o tamanho dos investimentos previstos pelas grandes empresas de tecnologia e a crescente participação dessas companhias no S&P 500. Quanto mais essas ações avançam, maior também se torna sua influência sobre o comportamento do índice.Ilan Arbetman, analista de Research da Ativa Investimentos, lembra que essa dinâmica representa uma mudança relevante em relação ao início do ano, quando a rotação global havia favorecido os mercados emergentes.“Nos últimos meses, porém, esse movimento se inverteu”, afirma.Segundo Arbetman, as ações americanas voltaram a ser favorecidas pelo entusiasmo com inteligência artificial e pelo crescimento dos lucros, enquanto o Brasil passou a conviver com saída de capital, preocupações fiscais e maior incerteza política.No entanto, essa força também traz vulnerabilidades.O S&P 500 negocia com múltiplos superiores à sua média histórica e está bastante concentrado nas maiores empresas. Isso significa que uma eventual frustração com crescimento, lucros ou retorno dos investimentos em IA pode atingir justamente os papéis que mais contribuíram para levar o índice às máximas.André Matos, CEO da MA7 Capital, vê aí uma assimetria importante: “O Brasil está barato, mas carrega risco político e depende de um gatilho, enquanto os Estados Unidos estão caros e carregam risco monetário.”A leitura ajuda a evitar uma conclusão automática de que a diferença atual só poderia diminuir com uma disparada do Ibovespa. O jogo também pode mudar se Wall Street perder força.O que faria o Brasil voltar a encostar em Wall Street?O próprio comportamento dos mercados neste ano mostra como essas posições podem se inverter rapidamente.No começo de 2026, a fraqueza de parte das ações americanas abriu espaço para uma rotação internacional em direção a ativos mais baratos. O Brasil foi um dos beneficiados, apoiado por valuations descontados, expectativa de queda da Selic e entrada de estrangeiros.Arbetman lembra que esse ambiente ajudou a Bolsa brasileira a superar os índices americanos naquele momento. Depois, a recuperação da tecnologia nos Estados Unidos coincidiu com o aumento das incertezas domésticas e virou novamente a direção dos fluxos.Tonello aponta três eventos capazes de produzir uma nova mudança: uma correção relevante nas ações de tecnologia americanas, um ciclo mais agressivo de cortes da Selic, e a definição do cenário eleitoral brasileiro.Lima acrescenta à lista uma melhora perceptível da trajetória fiscal e maior visibilidade política.Nenhum desses fatores, isoladamente, garante uma nova arrancada do Ibovespa. Mas eles mostram que a fotografia atual não precisa necessariamente permanecer igual até dezembro.Em suma, para o Brasil, o cenário mais favorável seria uma combinação de redução do risco doméstico, juros em trajetória mais convincente de queda e retomada do fluxo global.Para os Estados Unidos, a exigência é outra. Depois de uma forte valorização e com múltiplos elevados, as empresas precisam continuar entregando crescimento suficiente para sustentar as expectativas que já estão nos preços.The post Brasil no urso, EUA no touro: o que pode mudar o jogo no 2º semestre appeared first on InfoMoney.

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