O movimento de reprecificação de ativos após o resultado das urnas deste domingo (25) mostra que o mercado está recalculando a rota dos investimentos, o que inclui uma dúvida maior sobre a capacidade do governo conter gastos públicos. As oscilações de curto prazo poderiam ser mitigadas com uma “agenda de previsibilidade”, com o anúncio de nomes mais alinhados ao centro político para compor o governo reeleito de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), avalia Arnaldo Lima, economista e líder de Relações com Investidores da Polo Capital.Entre esses nomes, Lima cita o do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, no Ministério da Fazenda ou na Casa Civil; e do Rodrigo Pacheco, ministro do Tribunal de Contas da União, para compor o Supremo Tribunal Federal.“O fato é que, agora, para combater a volatilidade, o que o mercado espera é uma agenda de previsibilidade”, aponta Lima. “Não é a composição de poucas pessoas e em poucas posições estratégicas que determina a política econômica, mas sim a sua viabilidade”, diz. Leia também: Bolsa tomba 15% após vitória de Lula e registra uma das maiores quedas da históriaEle pontua que os nomes que estarão à frente da Casa Civil e da Articulação são tão importantes quanto os do Ministério da Fazenda, já que 93% do orçamento é de despesa obrigatória, o que coloca urgência em um debate amplo sobre reformas.A urgência por essas sinalizações não reflete apenas a ansiedade de especuladores, mas uma necessidade estrutural de grandes alocadores de recursos. “O mercado financeiro não é simplesmente os gestores da Faria Lima e do Leblon, mas inclui investidores institucionais, como a própria previdência do setor público e previdência complementar”, destaca Lima. Ele reforça que esses agentes “precisam de previsibilidade para fazer frente ao pagamento dos benefícios” atrelados às suas metas atuariais. Arcabouço fiscal e integração de orçamentosAlém dessa primeira sinalização, o fortalecimento do arcabouço fiscal deve entrar nas prioridades de acenos no pós-eleição. “O primeiro passo na direção correta é ter metas factíveis e entregar mais do que a meta estipulada”, diz Lima. “O que o mercado espera e ficaria mais acomodado, seria uma sinalização maior pelo lado da despesa”, observa. Para atingir essa acomodação, o economista avalia que a integração e a redefinição de critérios dos programas sociais são essenciais não apenas para a eficiência do orçamento, mas para estancar passivos judiciais contra a União. “Isso inclusive é um fato gerador de precatórios, porque tem várias regras de acesso a diversos programas sociais”, explica Lima. Ao compatibilizar as definições de vulnerabilidade, o governo tende a obter um impacto fiscal positivo sem cortar assistência. Leia mais: Os 3 testes fiscais que Lula terá de passar para recuperar o mercado, segundo UBSNovos gastos sociaisA declaração de Lula no pronunciamento após a eleição indicou que o governo quer priorizar políticas de cuidado aos idosos, de tratamento de câncer, e de incentivos para a permanência de alunos nas escolas com o programa Pé-de-Meia.Para Lima, é preciso saber o detalhamento das propostas para entender se haverá novos gastos, porque parte do que foi dito pode ser realocado dentro de despesas já existentes, sem precisar abrir novas rubricas.Independência do BC e política de subsídios O receio de uma guinada intervencionista no crédito estatal também é minimizado pelo economista. A sinalização da independência da autoridade monetária e a permanência do diretor Gabriel Galípolo são vistas como garantias de continuidade. Além disso, Lima afasta a possibilidade de sobressaltos nos bancos públicos. “Não vejo nenhum grande ‘cavalo de pau’ na agenda de subsídios, como, por exemplo, a volta de uma TJLP [Taxa de Juros de Longo Prazo] e uma despesa maior com BNDES”, projeta o especialista. Leia mais: Lula terá desafio fiscal pela frente, e inflação pode chegar a 6%, diz XPComo a economia verde atrai capital estrangeiro No discurso de vitória na eleição, Lula também destacou a intenção de promover a economia verde, sustentável, e a tecnologia nacional por meio de ferramentas de inteligência artificial. Na avaliação de Lima, essas políticas podem atrair capital do exterior, impulsionado por um cenário de geopolítica de distanciamento das áreas de conflito do globo. Ele aponta que o país apresenta diferenciais de tração de recursos por reunir características de democracia com estabilidade, mercado de consumo de massa, mercado de capitais em expansão e fontes de energia de padrão renovável.A consolidação da entrada de investimentos, contudo, exige garantias de segurança de leis e controle de contas do Estado. “Se a gente fizer o dever de casa no fiscal, tem investimento”, declara Lima.Reformas administrativas e quadro de servidores E, para controlar as despesas, Lima – que já passou por posições públicas nos ministérios do Planejamento, Fazenda e Educação – cita que alterações de estrutura na máquina de Estado não precisam ser aprovadas por meio de projetos de lei no Congresso Nacional e podem avançar com medidas de regulamentação. Ele dá como exemplo o fim da exigência de estabilidade na contratação de servidores e a projeção de que 30% do quadro de servidores da União irá se aposentar na próxima década, liberando espaço nas despesas. “Isso é uma nova janela aberta de migração para o regime de previdência complementar para os servidores federais. E isso está ocorrendo também dentro de estados e municípios”, diz. Polo Capital descarta crise econômica para 2027Apesar das pressões fiscais, o líder da Polo Capital rebate a tese de que uma crise aguda já estaria contratada para o próximo ano da economia brasileira. O diagnóstico aponta para um reajuste de rota natural, sem grandes rupturas. “O que a gente tá vendo é uma desaceleração da economia, algo em torno de meio ponto percentual”, pondera. Ele reconhece que há, de fato, uma inflação que pode vir acima da meta devido a fatores exógenos, como o fenômeno climático El Niño, mas ressalta que o movimento deve ser acompanhado pela acomodação do mercado de trabalho e pela continuidade de cortes na taxa Selic pelo Banco Central. The post Aceno ao centro e previsibilidade vão ancorar ânimos no pós-eleição, diz Polo Capital appeared first on InfoMoney.
