Alta de custos é grande vilã de construtoras na B3 – mas analistas veem oportunidades

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As ações das construtoras registraram uma forte queda nas últimas semanas na B3. Mais do que as discussões sobre a destinação do FGTS para outros fins além do segmento habitacional, uma grande vilã apareceu para o setor, notoriamente para o segmento de baixa rende: a inflação de custos, também impactada pela guerra no Irã. A Sinduscon destacou, em conversa com analistas da XP, que o ambiente setorial segue cada vez mais desafiador. A dinâmica de custos na construção residencial se deteriorou ainda mais, com a pressão agora mais concentrada em materiais do que em mão de obra. O INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) permanece em patamares elevados, refletindo tanto a inflação efetiva de custos quanto a recomposição de preços pelos fornecedores, em um ambiente de reajustes mais disseminados e baixa transparência na formação de preços. “O repasse de custos tem se tornado cada vez mais desafiador para o segmento de média renda, dado o impacto direto nas parcelas de financiamento e a maior sensibilidade da demanda a preços, considerando o atual cenário de juros”, apontou. Leia tambémIbovespa: os 3 fatores que fazem o índice cair cerca de 2% na sessão desta quintaNo cenário doméstico, investidores acompanham o encontro entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente dos EUA, Donald TrumpPreços mais elevados do Brent pressionam frete, concreto, cimento, PVC e consumo de diesel nas fases iniciais das obras (terraplenagem), aumentando a sensibilidade dos custos de construção a choques no preço do petróleo. “Apesar de os pedidos de reajuste por parte dos fornecedores serem relativamente homogêneos, o impacto líquido é desigual: empresas de maior porte estão mais bem posicionadas para mitigar essas pressões, enquanto companhias menores ficam mais expostas à compressão de margens, diante de contratos mais frágeis e renegociações frequentes”, destacam Ygor Altero e João Rodrigues, analistas da XP que assinam o relatório. Leia mais: Desenrola 2.0 e FGTS para dívidas frustram os planos do setor imobiliário para 2026Cabe destacar também que o mercado de trabalho segue apertado, influenciado por obras públicas e pelo ciclo eleitoral, enquanto as negociações salariais continuam a representar riscos. Já potenciais mudanças nas regras de jornada de trabalho configuram um risco relevante tanto para custos quanto para prazos de construção.O Itaú BBA aponta que, historicamente, altas de 40% a 50% nos preços do petróleo e diesel resultam em aumentos de cerca de 10% nos custos da construção, o que pode reduzir as margens do setor em aproximadamente 1,6 ponto percentual. Antes da guerra do Irã, o petróleo brent operava na casa dos US$ 72 e chegou a operar perto dos US$ 120 nas máximas durante o conflito (ou uma alta superior a 60%). Com isso, revisou para baixo as projeções de lucro entre 3% e 15% em 2026 e entre 1% e 3% em 2027, a depender da companhia. Para o Bradesco BBI, o principal problema é visibilidade: a inflação de custos é difícil de projetar e os resultados do 1T26 (primeiro trimestre de 2026) pouco devem esclarecer esse tema, dado que o INCC-M acumulado em base anual ainda roda em 5,82%. No entanto, já surgem sinais iniciais de aceleração rumo ao 2T26 — o dado de abril do INCC-M subiu 1,04%, ante 0,36% em março — e um estudo preliminar da FGV aponta para um impacto potencial de 4 pontos percentuais (p.p.) no INCC cheio de 2026, cerca do dobro do que vem sendo incorporado atualmente nos orçamentos das companhias.Impactos já são sentidos?A XP aponta que as incorporadoras ainda se beneficiam de alguma folga orçamentária em projetos em andamento, o que atua como um amortecedor de curto prazo, parcialmente sustentado por um ambiente cambial recente mais favorável, que ajudou a aliviar os custos de insumos dolarizados. “No entanto, a persistência de um INCC elevado deve erosionar gradualmente essa margem de conforto, exigindo ajustes estratégicos”, aponta. O segmento de baixa renda compensa o aumento de custos por meio de ganhos de produtividade (menos trabalhadores para a mesma atividade) e dos ajustes recentes no programa MCMV (Minha Casa Minha Vida). Em contrapartida, o segmento de média renda permanece mais vulnerável, em função da maior intensidade de materiais (inerente aos métodos construtivos) e do espaço limitado para repasses de preços, dadas as condições de oferta e juros, o que deve resultar em lançamentos mais seletivos e maior foco na redução de estoques.Construtoras mais e menos expostas: há oportunidades?Neste cenário, o Itaú BBA aponta que as ações do setor já tiveram uma queda expressiva nas últimas duas semanas, entre 15% e 25%, contra um recuo de 7% do Ibovespa. Contudo, avalia que a reação do mercado é exagerada, pois embute um cenário de alta de 18% dos custos, semelhante ao pico observado na pandemia. “Com isso, as ações ficaram baratas quando olhamos múltiplos como preço em relação ao lucro (P/L) e Taxa Interna de Retorno (TIR). Ainda assim, o momento exige seletividade”, avalia, tendo como principais escolhas as ações de Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3). O BBA avalia que a Direcional é a menos sensível ao aumento de custos da construção, mantendo assim recomendação de “compra” e preço-alvo de R$ 16,50, enquanto a Tenda segue entre as principais escolhas e hoje está melhor preparada para um novo choque de custos do que em 2020 e 2022, após reforçar provisões e fortalecer sua estrutura financeira. A recomendação para TEND3 é de “compra”, com preço-alvo de R$ 43.Leia também: Pagar ITCMD do imóvel herdado livra o contribuinte do Imposto de Renda? Veja A Cury (CURY3), por sua vez, é relativamente mais exposta ao aumento de custos, mas segue bem-posicionada no médio prazo, com execução comercial forte, o que deve permitir reajustes de preços e recuperação gradual das margens, avalia o BBA. Além disso, a ação está bastante descontada, oferecendo um retorno potencial muito interessante no cenário base. O preço-alvo é R$ 38.O Bradesco BBI também vê Direcional e Tenda sendo melhor posicionadas, enquanto Cury e Plano & Plano (PLPL3) mostram maior exposição à pressão de custos, dado o volume mais elevado de receitas ainda não reconhecidas — o que os levou a revisões moderadas para baixo das estimativas da Cury para o fim de 2026 e 2027.A Cury, por sua vez, é a preferida da XP, dado seu porte, execução, histórico operacional e exposição ao segmento de baixa renda, mais defensivo. Para os analistas da casa, caso o ambiente atual persista, entendem que ele reforça um risco estrutural de compressão de margens ao longo de 2026, com impacto ainda mais relevante em 2027. Sabe quanto precisa investir para viver de renda? Calcule agora com a Planilha Viva de Renda“As incorporadoras de baixa renda permanecem relativamente mais defensivas, sustentadas por melhores condições macroeconômicas, enquanto as empresas focadas em média renda concentram os principais riscos operacionais e comerciais”, avalia. O BBA aponta que, para a Plano&Plano (PLPL3), a recomendação de “compra” está mantida pelo valuation, o que compensa os riscos do cenário e sustenta a tese de investimento, tendo preço-alvo de R$ 18. Já a MRV (MRVE3) segue com recomendação neutra pois, apesar dos desafios do setor, sua ação negocia a múltiplos relativamente mais altos, com preço-alvo de R$ 8,50. The post Alta de custos é grande vilã de construtoras na B3 – mas analistas veem oportunidades appeared first on InfoMoney.

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