A recuperação do Banco do Brasil (BBAS3) após a forte deterioração da carteira de crédito rural dependerá menos do volume de renegociações e mais da capacidade dos produtores voltarem a honrar seus compromissos financeiros. Essa foi a principal mensagem transmitida pela administração do banco durante reuniões com investidores realizadas no Rio de Janeiro e destacada em relatório da Genial Investimentos.Na avaliação da casa, o quarto trimestre de 2026 deverá ser o primeiro momento em que o mercado poderá avaliar com maior clareza se as medidas adotadas serão suficientes para recolocar os resultados em uma trajetória de recuperação sustentável.O banco atravessa desde 2025 um ciclo de deterioração do crédito rural, que pressionou a inadimplência, reduziu a rentabilidade e impactou os indicadores de capital. Embora o segundo trimestre tenha mostrado sinais de estabilização na carteira agro, os analistas avaliam que ainda há um longo caminho para a normalização.Leia mais: BBAS3: ação sobe no ano com atenção às eleições – mas analistas seguem cautelososSegundo o relatório, o principal indicador monitorado pela administração atualmente é a chamada pontualidade dos pagamentos, que mede a parcela dos compromissos quitados na data de vencimento. Em julho, o indicador estava próximo de 75%, muito abaixo do histórico de 97% a 98%. O Banco do Brasil indicou que essa taxa precisa se aproximar de 90% para que o custo de crédito volte a convergir para o guidance projetado para 2026.Para melhorar esse cenário, a instituição endureceu critérios de concessão, reforçou exigências de garantias e passou a concentrar a originação em clientes considerados mais resilientes financeiramente.MP 1.376 é aposta para destravar recuperaçãoO elemento central da tese é a execução da MP 1.376, medida provisória que ampliou os instrumentos disponíveis para renegociação de dívidas rurais afetadas por problemas climáticos ou queda dos preços agrícolas.A medida permite renegociações com prazo de até oito anos, carência de dois anos para o principal e taxas equalizadas, desde que os produtores apresentem laudos técnicos que comprovem as dificuldades enfrentadas.Segundo o Banco do Brasil, o potencial da nova MP pode alcançar cerca de R$ 30 bilhões entre operações inadimplentes e contratos que já tiveram vencimentos prorrogados. A medida sucede a MP 1.314, que anteriormente movimentou aproximadamente R$ 38 bilhões e ajudou a aliviar pressões sobre o capital do banco.No entanto, a operacionalização da MP começou apenas no final de agosto, o que limita seus efeitos sobre o terceiro trimestre.Veja também: BBAS3 sofre nas eleições? O que seis disputas mostram — e o alerta de 2026Por isso, a Genial acredita que o quarto trimestre será o verdadeiro teste da estratégia. O período já deverá incorporar maior volume de contratos renegociados e, principalmente, evidências sobre o comportamento dos clientes após a reestruturação das dívidas.Desafio para alcançar o guidanceAs contas explicam a relevância do período. O Banco do Brasil acumulou lucro de R$ 7,3 bilhões no primeiro semestre de 2026. Segundo exercício elaborado pela Genial, mesmo assumindo crescimento de 10% no lucro do terceiro trimestre, para aproximadamente R$ 4,3 bilhões, ainda seria necessário entregar cerca de R$ 6,4 bilhões no quarto trimestre para alcançar o piso de R$ 18 bilhões previsto no guidance anual.Para os analistas, o resultado do terceiro trimestre poderá ser menos importante pelo lucro reportado e mais pelas sinalizações fornecidas pela administração sobre a execução da MP, a evolução da pontualidade e o comportamento das operações agro classificadas nos estágios de maior risco.Agro estabiliza, mas inadimplência segue elevadaHá alguns sinais positivos recentes, mas o quadro continua desafiador. A inadimplência acima de 90 dias na carteira agro encerrou o segundo trimestre em 6,27%, praticamente estável na comparação com o primeiro trimestre. Ainda assim, o estoque de operações problemáticas permanece próximo de R$ 26,4 bilhões.Além disso, a inadimplência acima de 30 dias avançou de 7,35% para 8,97% entre março e junho, movimento que a instituição atribui, em parte, à espera dos produtores pelas novas condições de renegociação trazidas pela MP 1.376.Leia tambémGoldman Sachs vê “janela de compra” para Sabesp (SBSP3) após queda recentePapel acumula queda de cerca de 10% em relação ao índice de utilities brasileiro nos últimos 60 diasMBRF (MBRF3) pode subir até 23% apenas com queda da Selic até 2027, avalia GoldmanBanco estima que uma eventual normalização dos juros para 12% até o fim de 2027 poderia gerar potencial de valorização de 23% para a ação apenas pelo efeito financeiroO mercado acompanha o agro, mas outras linhas de crédito também geram atenção. A inadimplência acima de 90 dias na carteira de pessoa física avançou de 6,82% para 8,41% no segundo trimestre. Em cartões, o indicador saltou de 7,10% para 14,58%.Segundo o banco, parte da piora está ligada a produtores rurais que também utilizam produtos de varejo, além do aperto sobre a renda das famílias. No caso dos cartões, houve ainda impacto de uma funcionalidade de parcelamento automático implementada no final de 2025 e posteriormente restringida no início do segundo trimestre.Para a Genial, os instrumentos de recuperação estão mais claros do que estavam há alguns meses, mas o ritmo da normalização segue cercado de incertezas.A avaliação é que a estabilização do agronegócio representa apenas a primeira etapa de um processo mais longo. O sucesso dependerá da capacidade de transformar renegociações em retomada efetiva dos pagamentos, reduzir a inadimplência e reconstruir a rentabilidade do banco. Assim, os próximos dois trimestres serão decisivos para determinar se o Banco do Brasil finalmente entrou em um ciclo consistente de recuperação ou se a normalização dos resultados voltará a ser adiada.A Genial tem recomendação de manutenção para BBAS3, com preço-alvo de R$ 23,30, muito próximo do atual patamar das ações. The post BBAS3: Por que o 4T26 será o primeiro grande teste para o Banco do Brasil? appeared first on InfoMoney.
