Grandes gestoras estão se protegendo de um eventual controle cambial no Brasil nos próximos anos. O Verde, um dos maiores fundos multimercados do país, está comprando proteções para o caso de o próximo governo adotar medidas que limitem ou encareçam a remessa de recursos ao exterior, segundo o gestor Luís Stuhlberger.Em evento da Monte Bravo na semana passada, Stuhlberger afirmou que o fundo tem muito dólar on-off, operação que consiste em comprar dólar no exterior e vender dólar futuro no Brasil. “Se ocorrer uma crise e a gente for para um caminho de o governo querer baixar o juro na marra, ficar desesperado, as remessas devem aumentar e aí o governo vai te impedir de comprar dólar, o chamado risco de convertibilidade”, explicou.Outra grande gestora, que pediu para não ser identificada, também vem adotando estratégias em seus fundos para se precaver contra uma eventual limitação das remessas ao exterior. Como referência, cita o caso da Argentina, que por vários anos limitou a compra de moeda americana a US$ 200 mensais, no chamado “cepo cambiário”. “Representantes do próprio PT já afirmaram que consideram o controle de capitais como uma ferramenta legítima de política econômica”, diz um gestor da casa.Por isso, essa gestora comprou títulos no exterior e está vendida em dólar no Brasil. A aposta é que a moeda americana dispararia no mercado local, elevando também o cupom cambial (a taxa de juros em dólar no Brasil), e por isso a casa está também tomada nesse indicador, ou seja, posicionada para ganhar com sua alta.Gestores ouvidos pela reportagem afirmam que essa situação só ocorreria no caso extremo de o governo manter um déficit fiscal elevado, o que faria a dívida pública explodir e levaria à chamada dominância fiscal, cenário em que a inflação dispara mesmo com o Banco Central elevando os juros. Nesse contexto, investidores e empresas tenderiam a mandar recursos para o exterior, e o governo tentaria conter esse movimento com impostos ou até com a limitação de remessas. Leia também: Mercado se anima com possível disparada da Bolsa pós-eleições: como surfar?Stuhlberger acredita, porém, que a primeira medida em caso de crise cambial não seria a proibição de remessas, mas a cobrança de IOF sobre os envios de recursos. “Você tem de considerar que em algum momento você pode ter de pagar 10%, 15% de taxa para poder comprar dólar, é algo para se pensar no caso de o Lula ganhar”, disse. “Você não vai ver o dólar subir tanto, mas para comprar sai mais caro”, avalia. “Se tiver algo minimamente parecido com a Argentina, de proibição, essa proteção custa cerca de 0,1% ao ano e pode valer 10%, 15%, 20%”, acrescentou.Tanto Stuhlberger quanto outros gestores veem essas estratégias mais como uma proteção contra os chamados “riscos de cauda”, eventos com baixa probabilidade de ocorrer, mas que não podem ser ignorados.“Nossas contas externas são o que o país tem de bom hoje”, diz, ressalta Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital, defendendo que o ponto mais frágil é o fiscal. Segundo ele, com a alta do petróleo, a balança comercial brasileira deve registrar superávit de US$ 90 bilhões neste ano, enquanto o investimento estrangeiro direto segue forte, principalmente o vindo da China. “O investimento direto hoje está em cerca de 3% do PIB, e cobre com folga o déficit externo do país, de 2% do PIB”, observa. “Não vejo o câmbio sendo um grande problema no curto prazo, a não ser que entre aquele clima de dominância fiscal, que o país vai quebrar, aí tem de ter controle cambial, porque não adianta ter caminhão de reserva se todo mundo quiser mandar dinheiro para fora”, afirma o gestor.Leia também: “O pior já passou”: gigante asiático vê avenida para ouro disparar 47% em 1 anoMenezes avalia que, antes de o câmbio disparar, o investidor verá outros ativos se desvalorizarem de forma acentuada, especialmente a ponta longa da curva de juros dos títulos públicos. “Hoje a Armor não tem proteção nenhuma para esse cenário”, explica. “Mas, se fosse fazer proteção para um cenário de controle cambial, provavelmente faria tomando recursos com juros longos prefixados, porque acredito que esse seria o mercado mais frágil”, diz.Na visão do gestor, um cenário de controle cambial teria de ser precedido por uma corrida bancária, com busca por dólar e venda de ativos financeiros, especialmente títulos públicos, que se desvalorizariam muito mais que a própria moeda. Nesse caso, a bolsa sofreria menos, assim como ativos reais, como imóveis. “No momento estamos neutros em Brasil porque estamos muito em dúvida sobre quem vai levar a eleição”, diz. “Mas o melhor fundamento do Brasil hoje é o câmbio, e deveria sofrer menos que juros e bolsa”, acrescenta.The post Controle cambial no Brasil? Gestores veem risco baixo, mas compram proteção appeared first on InfoMoney.
