Copom deve cortar juros, mas eleição, El Niño e petróleo travam sinalização do BC

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O corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) é quase unanimidade para o mercado, com as projeções apontando 94,25% de probabilidade disso acontecer, de acordo com a Opções de Copom, da B3. Mas as eleições, o efeito do El Niño na inflação de alimentos e as cotações de petróleo com o conflito no Oriente Médio turvam o horizonte próximo, adicionando instabilidade no cenário macroeconômico local e internacional, e tirando a clareza do ritmo de calibração.O Copom chega a mais uma reunião de definição de juros nesta terça (15) e quarta-feira (16) com um cenário macroeconômico com sinais mais evidentes de desaceleração. O Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre veio com uma composição fraca e com queda inesperada de 0,4% no consumo das famílias. A inflação oficial, captada pelo IPCA, confirmou a desaceleração do indicador em agosto, com melhoras no núcleo e em preços industriais.Leia mais: Desinflação no IPCA pode ser alívio passageiro; câmbio, petróleo e clima preocupamPara Claudio Ferraz, economista da Galapagos Capital, estes dados colocam o corte de 0,25 p.p como cenário-base, mas isso não garante que o Copom deverá seguir calibrando a redução de juros mais à frente. Para ele, a deterioração das expectativas de inflação, em especial para 2027, justificaria uma interrupção nos cortes para a reavaliação. “O corte na reunião de setembro é o cenário-base, mas a conjuntura é de cautela”, afirma.Para a equipe da 4Intelligence, o espaço para reduzir os juros existe, mas sua extensão deve ser condicionada à consolidação da desinflação, ao comportamento das expectativas e à evolução dos riscos.Divisão no mercado: pausa ou continuidade?O atual cenário de incertezas divide os economistas quanto aos passos seguintes do Banco Central. De um lado, parte do mercado avalia que o Copom deve paralisar o ciclo de queda após a decisão desta semana. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, projeta que a taxa Selic deve chegar a 13,75% e permanecer neste patamar. O motivo principal, segundo ele, é a postura de espera do BC pelas definições eleitorais e pelo desfecho fiscal que virá das urnas.A mesma visão de estabilização é defendida por Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, que revisou a projeção da Selic ao final de 2026 de 14% para 13,75%, prevendo a manutenção da taxa nas últimas reuniões do ano. Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio-fundador da AW Capital também aposta em corte e pausa. Para ele, os cortes devem coltar quando o BC identificar espaço nos dados internos e no ambiente global que, além dos conflitos geopolíticos, inclui o movimento de outros países pela elavação da taxa de juros.Para o banco Itaú, o ambiente exige cautela. Segundo a instituição, as expectativas de inflação não apresentaram piora adicional, mas seguem distantes da meta. O banco destaca, no entanto, que o cenário internacional permanece incerto, com pressão recente na curva de juros dos EUA e nova rodada de elevação das tensões no Oriente Médio, gerando volatilidade nos preços do petróleo. Neste contexto, aponta dois caminhos para o BC, que seriam a pausa ou cortes adicionais de 0,25 p.p.Outras instituições enxergam espaço para a continuidade do afrouxamento monetário ainda em 2026. Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, destaca que os recentes indicadores de atividade dão margem para manter as reduções e que se o BC entrar nesse ciclo eleitoral cortando juros, deve manter o movimento nas próximas reuniões. “Mudamos nosso call com esses dados de alívio no curto prazo e agora vemos o Banco Central seguindo o ritmo de cortes de 0,25 ponto percentual até o final do ano”, explica Bittencourt, que projeta a Selic terminal de 13,25%.Arnaldo Lima, economista da Polo Capital, também prevê mais um corte na reunião de novembro, além da de setembro, o que levaria a taxa a 13,5% ao fim deste ano. Para Lima, as diretrizes da nova política fiscal e o modelo de reajuste do salário mínimo ditarão o ritmo da Selic em 2027, que deve terminar em 11,50%.Riscos no radar: eleições, El Niño e exteriorNo ambiente doméstico, o impasse sobre a sustentabilidade das contas públicas atua como a principal âncora para a incerteza. Bittencourt ressalta que a vulnerabilidade fiscal mantém a curva de juros pressionada e que a clareza sobre esse quadro não virá das campanhas eleitorais. “O cenário fiscal só se desanuvia no primeiro, segundo ou terceiro discurso do presidente eleito, seja ele quem for”, pontua, citando que os candidatos têm evitado assumir compromissos com cortes de despesas obrigatórias.Lima, da Polo Capital, pontua que a indefinição do cenário eleitoral coloca dúvidas sobre políticas que vão impactar a economia. “Independente do cenário político, haverá mudanças para fortalecer o arcabouço ou uma nova regra do lado da despesa. Com certeza a gente vê uma amenização da política de valorização do salário mínimo e, provavelmente, a inclusão de saúde e educação dentro do teto”, avalia.A inflação, por sua vez, volta a ser pressionada por choques climáticos e geopolíticos. Lima e Ferraz, da Galapagos, projetam que o IPCA encerre o ano em 5,2%, puxado pelo El Niño, que teve a probabilidade de ser um evento forte elevada para 97%, trazendo impactos severos na inflação de alimentos, especialmente nas hortaliças e em produções de curto prazo.No cenário internacional, os desafios se acumulam e afetam os mercados emergentes. A recente elevação das tensões no Oriente Médio fez o preço do petróleo saltar para o patamar de US$ 100 o barril, gerando efeito altista sobre as projeções de curtíssimo prazo. Somado a isso, há uma reprecificação das curvas de juros nos países centrais, sobretudo nos Estados Unidos, consolidando um vetor externo de maior adversidade e volatilidade.Comunicação cautelosaOs economistas projetam uma comunicação cautelosa, sem forward guidance, colocando a próxima decisão.De acordo com o Itaú, a expectativa é de que o Copom repita a descrição de um balanço de riscos como assimétrico para cima, sem alterações substanciais. “O Comitê deve manter a porta aberta, sinalizando dependência de dados e ausência de forward guidance explícito”, diz o relatório, assinado pelo economista-chefe Diogo Guillen.Para Salles, do C6, a justificativa do corte deve se dar diante da projeção de inflação ao redor da meta no horizonte relevante. “No entanto, as expectativas de inflação acima da meta, o mercado de trabalho aquecido e a resiliência da atividade econômica exigem ainda uma política monetária contracionista”, diz. “Diante da assimetria altista no balanço de riscos e das expectativas ainda desancoradas, o Comitê deve manter uma comunicação cautelosa e sem antecipar os movimentos seguintes, embora reconhecendo a possibilidade de novos ajustes caso necessário”, afirma.The post Copom deve cortar juros, mas eleição, El Niño e petróleo travam sinalização do BC appeared first on InfoMoney.

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