Em crédito privado, a taxa oferecida por uma debênture, um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) ou outro título é apenas uma parte da análise. Qualidade do emissor, concentração, estrutura da operação e liquidez também ajudam a determinar a relação entre risco e retorno.Esse cuidado ganha importância em um momento no qual os spreads — diferença entre a remuneração do crédito e sua referência, como o CDI — podem não compensar determinados riscos.Em setembro, por exemplo, a XP reduziu a exposição ao crédito privado pós-fixado em sua alocação e informou ter adotado maior seletividade diante do estágio atual do ciclo da classe. No relatório mensal, a instituição afirma que os prêmios disponíveis nem sempre compensam adequadamente os riscos de crédito, liquidez e estrutura assumidos.Anderson Peres, sócio-fundador da Valore Elbrus, afirma que a casa também tem adotado uma postura mais conservadora na seleção de emissores. A avaliação considera a relação entre o prêmio oferecido pelo papel e os riscos assumidos pelo investidor.Entre os setores nos quais a Valore identifica relações mais interessantes entre risco e retorno estão atividades com receitas consideradas mais previsíveis ou resilientes, como energia, saneamento e frigoríficos. Por outro lado, a casa relata maior cautela com papéis diretos de segmentos mais sensíveis aos juros, como construção civil, varejo e agronegócio.Gustavo Carvalho, CIO e sócio-fundador da Stellar Capital, destaca ainda a importância da análise passar pelos fundamentos das companhias e pelas estruturas de crédito, memso depois que o ativo entra na carteira.A partir das avaliações de Peres e Carvalho, além das referências da XP e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre os riscos da classe, reunimos seis pontos para observar antes e depois de investir em crédito privado.Leia também: Menos crédito pós-fixado, mais prefixados: a estratégia da XP para setembro1. Risco e retorno precisam ser avaliados em conjuntoUm dos exemplos usados por Peres para explicar o processo de seleção é a Americanas. A Valore não tinha exposição direta à companhia antes de os problemas da varejista virem a público.Segundo ele, isso não ocorreu porque a casa tivesse antecipado o que aconteceria posteriormente com a empresa, mas sim porque o papel já não atendia à relação entre risco e retorno considerada adequada pela Valore.O exemplo ajuda a mostrar como a análise de crédito não precisa partir da tentativa de prever qual companhia poderá enfrentar dificuldades. Na avaliação de Peres, o ponto central é verificar se a remuneração oferecida é compatível com os riscos assumidos na operação.O risco de crédito, que é a possibilidade de a contraparte não honrar suas obrigações nos termos acordados, também está presente em títulos emitidos por empresas conhecidas. Ao comprar um título de dívida, o investidor passa a depender da capacidade da contraparte de cumprir as obrigações previstas na operação.Saiba mais: Após dobrar equipe, Requin foca em consultoria e mira R$ 2,5 bilhões em custódia2. Concentração aumenta o peso de um problema isoladoMesmo uma análise criteriosa não elimina a possibilidade de perdas. Por isso, outra camada de controle utilizada pela indústria é limitar o tamanho de cada posição.Peres diz que a Valore trabalha com um teto de aproximadamente 3,5% da carteira do cliente por crédito, com o objetivo de evitar que um evento negativo isolado tenha peso excessivo sobre o patrimônio.A prática está relacionada ao princípio da diversificação. Além da seleção dos ativos, o tamanho da exposição a cada emissor também interfere no risco da carteira.A XP, por exemplo, apresenta como boa prática evitar exposição superior a 5% em um único emissor de crédito privado e a 20% da carteira no total da classe. Esses percentuais são parâmetros recomendados pela instituição, e não limites regulatórios.O risco de concentração aparece quando uma parcela relevante da carteira fica exposta à capacidade financeira de uma mesma companhia ou grupo. A CVM alerta que alterações na condição financeira de uma companhia ou grupo, nas expectativas sobre seu desempenho e na capacidade competitiva do setor podem afetar adversamente o preço ou o rendimento dos ativos.Leia também: R$ 9 bi em 15 anos: os pilares da estratégia de crescimento da Inove Investimentos3. Emissor, garantias e estrutura da dívida entram na análiseGustavo Carvalho, da Stellar Capital, acrescenta outra dimensão à avaliação. Além da seleção do crédito, a gestora acompanha continuamente os fundamentos das empresas que integram a carteira.Esse processo considera informações financeiras do devedor, como balanço, geração de caixa e capacidade de pagamento. Mas a qualidade da empresa não é o único elemento observado.Segundo a CVM, os riscos associados ao emissor, às garantias e aos próprios valores mobiliários são informações relevantes para a decisão de investimento. Por isso, a estrutura do título também precisa entrar na análise. Além de identificar quem deve, características específicas da dívida e as eventuais garantias da operação podem interferir no risco assumido pelo investidor. Por essa razão, operações ligadas a empresas com perfis semelhantes não devem ser tratadas automaticamente como equivalentes. As condições e estruturas de cada emissão precisam ser consideradas individualmente.Saiba mais: Como a W1 virou a melhor assessoria do ano e agora planeja formar 3 mil assessores4. O spread precisa ser comparado aos riscos assumidosPeres cita como exemplo a procura por papéis que pagam CDI mais 3%, 4% ou 5%.Em vez de comprar diretamente determinados títulos com spreads mais elevados, a Valore prefere, em alguns casos, acessar esse tipo de exposição por meio de fundos administrados por gestores especializados.Segundo Peres, essa alternativa permite que equipes dedicadas façam a análise e o acompanhamento de estruturas mais complexas. Entre os elementos mencionados por ele estão concentração, garantias e o grau de subordinação das estruturas.Peres também cita a importância de avaliar quem ocupa a posição subordinada em determinadas operações. As características da subordinação, porém, dependem das regras estabelecidas nos documentos de cada estrutura e precisam ser analisadas caso a caso.A avaliação relatada pela Valore mostra que CDI+X, isoladamente, não determina a atratividade de um título. O prêmio oferecido precisa ser analisado em conjunto com os riscos associados à operação.Leia também: Consultoria XP celebra um ano e define estratégia para chegar aos R$ 100 bi em 20275. Liquidez também faz parte da análisePeres aponta outra razão para utilizar fundos em determinadas operações mais complexas: a capacidade de alterar posições com maior agilidade. Por isso é importante estar atento ao risco de liquidez, ou seja, a possibilidade de não ser possível vender os ativos rapidamente por um preço justo.Segundo ele, um gestor pode decidir vender ou reduzir determinada exposição do fundo. Em uma carteira formada por títulos individuais distribuídos entre dezenas ou centenas de clientes, uma mudança desse tipo pode exigir mais tempo para ser executada.A questão coloca a liquidez entre os fatores relevantes na análise de crédito privado. Além da remuneração até o vencimento, existe o risco relacionado à necessidade de negociar o título antes do prazo previsto.Em momentos de estresse, determinados ativos podem ser mais difíceis de vender rapidamente sem aceitar um preço inferior ao esperado.Saiba mais: Com ecossistema de soluções integrado, M7 entra para o seleto grupo das Top 6 da XP6. A análise continua depois da compraA avaliação do crédito não termina quando o título entra na carteira.Carvalho descreve uma abordagem baseada na análise fundamentalista e no acompanhamento das empresas. O processo inclui a observação de informações financeiras, geração de caixa e outros elementos que possam alterar a capacidade de pagamento do devedor.Esse acompanhamento importa porque a relação entre risco e retorno pode mudar ao longo do tempo. Alterações na situação financeira do emissor ou nas condições de mercado podem modificar a avaliação originalmente feita para determinado crédito.A Stellar, segundo Carvalho, chegou a reduzir de maneira considerável sua exposição à classe quando avaliou que os spreads haviam se comprimido.Na avaliação da casa naquele momento, a remuneração disponível já não justificava determinados riscos e prazos.A XP também adota uma leitura cautelosa para o momento atual. No relatório de setembro, a instituição afirma que mantém postura mais seletiva no crédito privado e reduziu sua alocação no segmento pós-fixado.Leia também: De psicóloga a sócia: como Aline Rosa construiu uma carteira de R$ 300 milhõesO que considerar ao avaliar crédito privadoOs especialistas apontam para uma análise que vai além da remuneração oferecida pelo título.Emissor, concentração, características da dívida, garantias e liquidez estão entre os elementos que podem alterar a relação entre risco e retorno. A própria CVM trata riscos de crédito, concentração e liquidez como fatores relevantes dos investimentos.Assim, o spread oferecido por um título é uma das informações a considerar, mas precisa ser analisado ao lado das características da operação e do emissor.A questão central passa pela relação entre essas duas partes: qual é o retorno adicional oferecido e quais riscos precisam ser assumidos para buscá-lo?Saiba mais: Escritórios de assessoria de investimentos avançam no Brasil fora do eixo tradicionalThe post Crédito privado: o que avaliar além da taxa? Veja 6 pontos appeared first on InfoMoney.
