Restam apenas quatro pregões até o primeiro turno das eleições, e o mercado brasileiro entra na reta final da campanha em compasso de espera. A Bolsa perdeu força nas últimas sessões, o dólar voltou a subir e uma agenda carregada de pesquisas e indicadores ainda separa os investidores das urnas.Até sexta-feira, última sessão antes da votação, serão divulgados novos levantamentos eleitorais, dados de emprego e atividade no Brasil e nos Estados Unidos, além de números fiscais domésticos. Na quinta-feira, o debate da TV Globo adiciona outro evento político capaz de alterar a percepção sobre a disputa.É uma concentração pouco usual de gatilhos em poucos dias. Na terça-feira, entram pesquisa Atlas, taxa de desemprego, Caged e Jolts nos Estados Unidos. Na quarta, a agenda reúne novo levantamento Meio/Ideia, resultado fiscal brasileiro, ADP e PCE americano. O payroll fecha a semana na sexta-feira.Leia tambémEleição: 3 cestas de ações para diferentes resultados nas urnas, segundo Bradesco BBIBanco monta cestas ligadas ao atual governo e ao desafiante e seleciona ações resilientes a qualquer resultado; cenário mais otimista prevê alta de 76% para o MSCI BrazilIbovespa cai pelo quarto pregão seguidoNesta segunda-feira (28), o Ibovespa manteve sua perda de força recente, terminando aos 182.991,13 pontos, queda de 0,26%, depois de oscilar entre 181.931 e 184.095 pontos. Foi a quarta baixa consecutiva. Mesmo assim, o índice ainda acumula avanço de 3,14% em setembro e 13,57% em 2026.O exterior acrescentou cautela, com Wall Street em baixa e Treasuries mais pressionados. No Brasil, duas novas pesquisas eleitorais também foram absorvidas pelos investidores.A Quaest mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 34%. Em uma eventual disputa entre os dois no segundo turno, ambos aparecem com 42%. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 24 e 27 de setembro e tem margem de erro de dois pontos percentuais.Já o BTG/Nexus divulgado nesta segunda apontou Lula com 42% e Flávio com 37% no primeiro turno; na simulação de segundo turno, foram 46% a 44%, diferença dentro da margem de erro. O comportamento da Bolsa traduz esse ambiente. Lucas Tambellini, head de renda variável da Lifetime, definiu o momento como de “compasso de espera”, avaliando que uma saída mais clara da faixa recente depende de maior visibilidade após o primeiro turno. No gráfico, essa espera deixou o Ibovespa muito perto de uma região que pode começar a separar uma simples consolidação de uma correção mais ampla.Ibovespa perde força e chega perto de suporteA análise técnica mostra aumento da pressão vendedora no curto prazo.Depois da máxima histórica de 199.354 pontos, em abril, o Ibovespa recuou até 164.835 pontos e iniciou uma recuperação que levou o índice aos 189.487 pontos em setembro. A partir dali, o movimento perdeu força.Além das quatro quedas diárias consecutivas, o Ibovespa encerrou a última semana com a segunda baixa semanal seguida.Pelo gráfico diário, o índice negocia abaixo das médias móveis de 9 e 21 períodos. O Índice de Força Relativa (IFR) de 14 períodos está em 52,30 pontos, ainda em zona neutra — sem indicar sobrecompra ou sobrevenda.O fechamento desta segunda deixou o Ibovespa praticamente sobre a primeira região acompanhada no curto prazo.A faixa entre 182.990 e 178 mil pontos funciona como uma área importante de sustentação. Abaixo dela, as próximas referências aparecem em 177.430 pontos e, mais adiante, nos 164.835 pontos, mínima que deu origem à recuperação de agosto.Para voltar a demonstrar força compradora, o caminho é inverso. O índice precisaria inicialmente recuperar suas médias móveis e, principalmente, superar os 189.487 pontos.Acima dessa resistência, as próximas referências aparecem em 192.890 pontos e na máxima histórica de 199.354 pontos.Gráfico diário do Ibovespa mostra índice abaixo das médias de curto prazo e próximo de uma região importante de suporte após quatro quedas consecutivas. Elaboração: Rodrigo PazA leitura, portanto, ainda não aponta uma ruptura definitiva da estrutura observada em setembro. O que mudou é a posição dentro dela: depois das quedas recentes, o índice passou a trabalhar mais perto dos suportes do que da resistência que precisaria romper para retomar o movimento de alta.Dólar sobe à máxima em seis mesesNo câmbio, a fotografia é diferente.O dólar à vista terminou a segunda-feira em R$ 5,2264, alta de 0,83%, maior valor de fechamento desde 30 de março. A moeda americana ganhou força também contra outras divisas emergentes, enquanto a eleição doméstica acrescentou cautela ao movimento externo. Para a análise técnica, porém, a referência utilizada é o dólar futuro negociado na B3.A escolha tem uma razão: o contrato futuro concentra grande liquidez e é amplamente utilizado por investidores, instituições e traders tanto para negociação quanto para proteção de posições cambiais. Ele costuma oferecer uma leitura bastante direta da disputa entre compradores e vendedores ao longo do pregão.Há também uma diferença de apresentação. No mercado futuro, a cotação aparece em pontos: 1.000 pontos equivalem aproximadamente a R$ 1 por dólar. Dessa forma, um contrato em 5.225,5 pontos corresponde a algo próximo de R$ 5,2255.Nesta segunda, o dólar futuro terminou em 5.225,5 pontos, alta de 0,69%.Gráfico do dólar mostra compradores com vantagemAo contrário do Ibovespa, o dólar futuro negocia acima das médias móveis de 9, 21 e 200 períodos.As médias ainda apresentam inclinação mais lateral, o que recomenda cautela antes de falar em uma tendência mais forte. Ainda assim, a posição atual do preço mostra melhora do fluxo comprador.O IFR(14), em 60,15 pontos, continua dentro da zona neutra e ainda não sinaliza sobrecompra.O primeiro teste está logo acima dos níveis atuais, entre 5.234 e 5.268,5 pontos.Um rompimento dessa faixa, principalmente se acompanhado por maior volume, pode abrir caminho inicialmente para 5.383,5 pontos. Depois aparecem as regiões de 5.446 a 5.614 pontos.No sentido contrário, uma perda das médias e da faixa entre 5.191 e 5.093,5 pontos enfraqueceria a estrutura compradora. Nesse caso, 5.046/4.992 pontos voltariam ao radar.Gráfico diário do dólar futuro mostra contrato acima das principais médias móveis e pressionando a primeira faixa relevante de resistência. Elaboração: Rodrigo PazA combinação dos dois gráficos ajuda a resumir o momento: o Ibovespa perdeu impulso e se aproxima de suportes, enquanto o dólar ganhou força e se aproxima de resistências.Nenhum dos dois confirmou, até agora, um rompimento capaz de definir um movimento mais amplo.Pesquisas podem mexer com esse equilíbrioÉ justamente esse equilíbrio que será colocado à prova nos próximos quatro pregões.A disputa presidencial permanece apertada, e a agenda ainda prevê novos levantamentos antes da votação. A pesquisa Atlas está prevista para terça-feira e a Meio/Ideia para quarta. Na quinta, o debate da Globo deve colocar os principais candidatos frente a frente na última grande exposição televisiva antes do primeiro turno.O levantamento da Quaest desta segunda mostrou Lula à frente no primeiro turno e empate numérico no segundo. A pesquisa também foi a primeira da série a captar ao menos parcialmente a reação à medida que proibiu as bets. A própria reta final da campanha passou a incorporar temas econômicos com reflexo direto sobre o mercado. A estratégia eleitoral do governo tem destacado Bolsa Família e medidas relacionadas às apostas, enquanto a disputa pelos eleitores ainda não está completamente consolidada.Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a proximidade da votação aumenta o nervosismo mesmo quando as pesquisas não trazem grandes rupturas. Ele observa que o quadro fiscal continua no radar, sobretudo pela forma como cada candidatura pretende lidar com as contas públicas depois do pleito. O mercado já começa a olhar além de domingoEssa talvez seja a principal diferença entre os últimos quatro pregões e as semanas anteriores.A eleição pode produzir uma reação imediata nos preços. Mas uma valorização ou queda mais duradoura dependerá rapidamente de outras perguntas.O JPMorgan avalia que as ações brasileiras continuam negociando a valuations baixos e que o posicionamento dos investidores permanece leve. Para o banco, porém, isso não basta para iniciar uma nova fase consistente de valorização.Uma reprecificação mais duradoura dependeria de juros caminhando para níveis mais neutros, maior clareza fiscal, formação da equipe econômica, composição do Congresso e capacidade política de executar a agenda anunciada depois da votação. O Bradesco BBI também mantém uma visão positiva para o Brasil e considera os preços das ações atrativos, mas seus cenários mostram uma diferença grande entre uma combinação de reformas e queda dos juros reais e outra de deterioração fiscal.Isso ajuda a separar dois movimentos que podem se confundir nos primeiros dias após as urnas: a reação ao resultado eleitoral e a avaliação sobre o regime econômico que virá depois dele.Fiscal será uma das primeiras perguntas depois das urnasAs medidas anunciadas na reta final da campanha acrescentam elementos a essa discussão.O reajuste do Bolsa Família, o novo Desenrola e a proibição das bets podem representar impacto potencial de até R$ 42,3 bilhões nas contas públicas do próximo mandato, entre aumento de despesas e perda de arrecadação. O governo afirma que pretende acomodar essas medidas dentro das regras fiscais, por meio de revisão e remanejamento de despesas. Para o mercado, o ponto passa a ser como esse ajuste será feito e qual espaço permanecerá disponível para a política econômica do próximo mandato.Quatro pregões antes de uma nova etapaAté lá, o mercado ainda precisa atravessar uma agenda concentrada.Pesquisas e debate disputarão espaço com números de emprego, inflação e atividade. O payroll americano chega na sexta-feira, justamente no último pregão antes do primeiro turno.No curto prazo, os gráficos ajudam a localizar onde essa disputa começa a ficar mais sensível. O Ibovespa está próximo de uma faixa de suporte, enquanto o dólar testa uma região de resistência depois de atingir o maior fechamento em seis meses.Depois de domingo, porém, a discussão tende a mudar rapidamente.A contagem de votos dará lugar às perguntas sobre fiscal, juros, Congresso e capacidade de execução. É a resposta a esses fatores — mais do que apenas a reação inicial às urnas — que tende a determinar se os movimentos de Bolsa e dólar observados nesta reta final serão apenas volatilidade eleitoral ou o começo de uma nova fase para os ativos brasileiros.The post Em compasso de espera, Bolsa perde força e dólar sobe na reta final do 1º turno appeared first on InfoMoney.
