O Comitê de Política Monetária (Copom) acertou ao diminuir os juros nesta quarta-feira para 14% ao ano, mas o corte foi considerado insuficiente para aliviar os desafios impostos ao setor produtivo e às famílias brasileiras. Essa foi a linha de comunicação de algumas das principais entidades que representam a indústria.A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exemplo, destacou em comunicado que os juros altos agravam as dificuldades da indústria e seguirão asfixiando empresas e famílias. A entidade lembrou que os juros estão em patamar restritivo há 55 meses seguidos.“Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria, já tão prejudicada pelas incertezas no cenário externo. Além disso, o crédito caro compromete gravemente a renda das famílias, que já apresentam níveis recordes de endividamento e inadimplência”, afirmou em nota Ricardo Alban, presidente da CNI.A CNI disse ver justificativas para uma redução mais acelerada da Selic, como as expectativas de inflação em queda, segundo os últimos Boletins Focus do BC. Ao mesmo tempo, destaca que a própria inflação corrente vem perdendo força, como mostrou o último IPCA-15. Para a Confederação, esses indicadores reforçam a leitura de acomodação das pressões de oferta e de demanda verificadas nos últimos meses.Leia tambémCorte da Selic faz Brasil cair uma posição e leva país ao 2º maior juro real do mundoBrasil tem juro real de 9,33% com Selic em 14%; ranking considera as 40 maiores economias do mundo e é liderado pela RússiaA entidade também disse que a Selic está 3,6 pontos percentuais acima da taxa calculada com base na Regra de Taylor — estimada em 10,4%. Esta regra permite calcular uma taxa de juros que proporcione o controle da inflação sem desestimular o crescimento da economia. “A taxa de juros real, aproximadamente de 10%, supera com folga a taxa de equilíbrio estimada pelo próprio Banco Central, de 5%, indicando que há espaço para cortes mais expressivos na Selic, sem prejuízos no combate à inflação”, diz a CNI.A Firjan, que representa as indústrias do Rio de Janeiro, também elogiou o corte, mas afirmou que o nível ainda elevado da taxa mantém o crédito caro e restringe os investimentos e a expansão do setor industrial.“O elevado custo de capital posterga investimentos, dificulta a modernização produtiva e limita a capacidade das empresas brasileiras de ganhar produtividade e competir nos mercados interno e externo. Esse quadro se reflete no desempenho da indústria de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre do ano, segundo o IBGE”, disse a nota da entidade.Custo BrasilA Firjan também reforçou que a redução da Selic precisa ser acompanhada por avanços que permitam uma queda mais consistente dos juros e dos custos de produção no país. “Para isso, é indispensável o fortalecimento da credibilidade fiscal, a redução dos prêmios de risco e a continuidade da agenda de redução do Custo Brasil. A combinação entre equilíbrio das contas públicas, maior previsibilidade econômica e melhoria do ambiente de negócios é essencial para que a flexibilização monetária se traduza em mais investimentos, produtividade e competitividade para a indústria.”A avaliação da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg foi na mesma linha. “A estabilidade de preços é indispensável para o crescimento sustentável da economia. O processo precisa ocorrer com menor custo para a produção, os investimentos e o emprego, o que exige maior coordenação entre as políticas monetária e fiscal”, afirmou em nota o economista-chefe da Federação mineira, João Gabriel Pio.Segundo a Federação, a decisão do Copom reflete um cenário em que ainda persistem pressões inflacionárias, sobretudo no setor de serviços, além de um mercado de trabalho aquecido e incertezas em relação ao quadro fiscal.Na avaliação da entidade, o caráter expansionista da política fiscal e a ampliação de programas de crédito subsidiado, quando não acompanhados de um compromisso com o equilíbrio das contas públicas, reduzem a eficácia da política monetária e tornam o processo de controle da inflação mais custoso para a economia.“Um ciclo mais consistente de queda dos juros depende de um ambiente macroeconômico mais equilibrado, com responsabilidade fiscal, previsibilidade e maior efetividade da política monetária. Esse conjunto de fatores amplia a confiança, favorece o investimento produtivo e fortalece a competitividade da indústria”, destaca o economista.The post Entidades da indústria acham corte da Selic acertado, mas reclamam de juro ainda alto appeared first on InfoMoney.
