Há apenas duas semanas, os democratas estavam cada vez mais confiantes de que poderiam retomar o controle da Câmara em novembro, depois de aparentemente terem levado a disputa da redistribuição de distritos (redistritamento) a um empate.Mas duas decisões judiciais — uma da Suprema Corte dos EUA e outra da mais alta corte da Virgínia — somadas a uma nova investida agressiva de estados republicanos para redesenhar mapas eleitorais deram ao Partido Republicano seu maior impulso em muitos meses.De forma direta: os republicanos passaram a ter, em cerca de 10 dias, algo como 10 cadeiras a mais na Câmara desenhadas de forma a favorecê-los, e os democratas agora encaram um cenário bem mais difícil.“Está claramente mais apertado do que há uma semana e meia”, disse o deputado Brendan Boyle, democrata da Pensilvânia, sobre as chances de seu partido de reconquistar a Câmara.Os democratas ainda são vistos, em geral, como favoritos para vencer a disputa pela Câmara neste ano. Os republicanos enfrentam um clima político adverso, com a baixa popularidade do presidente Donald Trump, gasolina cara e uma guerra impopular contra o Irã. Em eleições especiais e nas disputas para governador no ano passado, o entusiasmo democrata superou com folga a mobilização republicana.“Eu esperava um ganho de 15 a 20 cadeiras antes desta última semana e meia”, disse Boyle. “Agora, espero algo entre 10 e 15 cadeiras.”Isso ainda é mais do que suficiente para tirar a maioria dos republicanos, que hoje detêm uma vantagem estreita, de 217 a 212 assentos. E a história não favorece o partido no poder: quase sempre a sigla que está na Casa Branca perde cadeiras nas eleições de meio de mandato.Mas, após as últimas mudanças de mapas, conquistar a maioria vai exigir que os democratas virem cadeiras em territórios menos favoráveis.Os republicanos, por sua vez, voltaram a ficar animados.“Senhor, conceda-me humildade”, escreveu James Blair, estrategista republicano que coordena a operação política de Trump nas eleições de meio de mandato, na rede X, na sexta-feira, após a corte máxima da Virgínia derrubar um mapa recém-aprovado que daria quatro cadeiras adicionais aos democratas.Um dos principais assessores políticos do presidente da Câmara, Mike Johnson, interrompeu uma reunião no Texas — onde o líder republicano fazia uma rodada de arrecadação de fundos — para dar a notícia, segundo duas pessoas a par da conversa. Em seguida, Johnson comemorou ao telefone com o ex-governador republicano da Virgínia Glenn Youngkin, que havia se posicionado contra o plano democrata de redesenhar os distritos do estado.Os últimos 10 dias mostraram a força — e a velocidade — com que os tribunais podem influenciar as eleições de meio de mandato, além do papel dos juízes na próxima fase da guerra do redistritamento. Processos recentes ainda em andamento na Virgínia, Tennessee, Flórida, Louisiana e Alabama podem reverter ou barrar parte dos potenciais ganhos republicanos até novembro.O desfecho dessa disputa legislativa e judicial, que se desenrola em grande parte fora do controle direto dos eleitores, pode ser altamente relevante. Nenhum partido conseguiu um ganho líquido de mais de uma dúzia de cadeiras na Câmara em uma eleição nacional desde a “onda” de 2018.Parlamentares do Tennessee, estado controlado pelos republicanos, aprovaram um mapa desenhado para dar ao partido o controle da única cadeira da Câmara dos EUA que ainda estava com os democratas no estado. Crédito: Brad J. Vest/The New York TimesA deputada Yvette Clarke, democrata de Nova York e presidente do Congressional Black Caucus, disse em entrevista que o partido está em “reuniões em cima de reuniões em cima de reuniões” para tentar reagir em estados controlados pelos democratas. Mas, segundo ela, os próximos passos ainda são incertos, em parte porque o calendário eleitoral fecha algumas janelas.“Não é uma sensação boa”, resumiu.Enxurrada de boas notícias para republicanosAs últimas semanas se mostraram um período de enorme importância na luta pelo controle do Congresso neste ano.Em 21 de abril, eleitores na Virgínia aprovaram, por margem estreita, um referendo que validou um novo mapa distrital desenhado pelos democratas e acusado de gerrymandering. Pouco depois, o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, de Nova York, fez uma coletiva em que reciclou um slogan usado no ano anterior por um aliado de Trump em reportagem do New York Times: “Guerra máxima, em todo lugar, o tempo todo”.“Os republicanos começaram essa guerra do gerrymandering”, disse Jeffries. “E deixamos claro, como democratas, que vamos terminá-la.”Mas a batalha estava só começando.Pouco mais de uma semana depois, a Suprema Corte publicou uma decisão importante sobre a Lei dos Direitos de Voto. Os republicanos agiram rápido. No Tennessee, redesenharam o mapa de forma a eliminar a única cadeira que ainda restava aos democratas no estado. Na Louisiana, o governador republicano tomou uma medida pouco usual e adiou as primárias para a Câmara — mesmo depois de as cédulas já terem sido enviadas — para conseguir aprovar um novo mapa. No Alabama, autoridades estaduais pediram à Suprema Corte autorização para usar um mapa que poderia virar mais uma cadeira democrata.Eleitores participam da votação antecipada na Prefeitura de Baton Rouge, Louisiana, onde as primárias para o Senado dos EUA serão realizadas, mas as primárias para a Câmara foram adiadas depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou o atual mapa distrital, em 2 de maio de 2026 (Emily Kask/The New York Times)No mesmo dia em que a Suprema Corte emitiu sua decisão, parlamentares da Flórida aprovaram um novo mapa para a Câmara que cria até quatro distritos adicionais favoráveis aos republicanos. “Assinado, selado e entregue”, escreveu o governador Ron DeSantis, republicano, nas redes sociais, na segunda-feira seguinte, ao sancionar a lei.Com o objetivo de levar adiante a ofensiva de redistritamento iniciada por Trump, mais estados comandados por republicanos estudam medidas semelhantes. Parlamentares do partido foram lembrados do preço de desafiar as demandas do ex-presidente na terça-feira, quando um grupo de legisladores em Indiana que resistiram ao plano de redistritamento apoiado por Trump perdeu as primárias para candidatos ligados ao movimento MAGA.Então veio a Virgínia, a maior surpresa de todas.Somando as cadeiras em que os democratas perderam ou podem perder terreno — até quatro na Virgínia, até quatro na Flórida, uma ou duas na Louisiana, uma no Tennessee, uma no Alabama —, o total devolve aos republicanos um otimismo renovado. Os eleitores, claro, terão a palavra final, e os democratas ainda planejam tentar virar duas cadeiras na Virgínia e brigar por alguns dos novos distritos na Flórida.Preparando o terreno para novembroOs dois partidos agora se preparam para uma disputa distrito a distrito neste outono norte-americano.No fim de abril, o Cook Political Report, que faz projeções eleitorais, classificava 217 cadeiras da Câmara como “pelo menos levemente favoráveis” aos democratas — o que significava que o partido precisaria vencer apenas uma das disputas consideradas “indefinidas” (toss-ups) para conquistar a maioria. Na sexta-feira, o Cook passou a ver apenas 208 cadeiras como pelo menos inclinadas aos democratas — o que obriga o partido a vencer 10 das 18 corridas tidas como indefinidas.Democratas em Maryland chegaram a considerar um esforço para redesenhar o mapa de distritos da Câmara no estado, mas a iniciativa não avançou na Assembleia Legislativa. Crédito: Andrew Mangum/The New York TimesOs mapas finais ainda não estão fechados, a menos de seis meses da eleição, com ações judiciais associadas aos democratas contra novos mapas republicanos em estados como Flórida, Louisiana e Tennessee. E mais estados sob controle republicano, como Kansas, Alabama e Carolina do Sul, cogitam abertamente pressionar por novas mudanças.Em alguns estados “azuis”, onde redistritamentos mais agressivos chegaram a ser cogitados, democratas agora buscam saídas.“Estou preocupado com o meu partido”, disse o senador estadual Arthur Ellis, de Maryland, democrata que vem defendendo que o estado redesenhe seu mapa antes das eleições de meio de mandato. Ele afirma que as derrotas na guerra do gerrymandering estão criando um “desafio real” para a tentativa de retomar a maioria na Câmara.Ellis disse que pretende enviar uma carta, no fim de semana, a outros parlamentares de Maryland para exigir a aprovação de novas linhas distritais em resposta à decisão da Virgínia. “Precisamos ter coragem de nos levantar e fazer nossas vozes serem ouvidas neste momento tão crucial e crítico da história dos Estados Unidos da América”, afirmou.c.2026 The New York Times CompanyThe post EUA: 10 dias que mudaram o mapa da Câmara — e a confiança dos democratas appeared first on InfoMoney.
