O Federal Reserve decidiu nesta quarta-feira (17) manter a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, decisão amplamente precificada pelos mercados. Mais do que o movimento em si, a atenção dos investidores se volta para a postura de Kevin Warsh à frente do banco central americano, que deve definir o rumo da renda fixa global nos próximos meses.Com o acordo entre Estados Unidos e Irã para o fim da guerra no Oriente Médio, o petróleo voltou a cair, assim como a curva de juros americana. Para quem busca exposição internacional, porém, a leitura ainda é positiva: a renda fixa global segue pagando como poucas vezes na história.Shinichiro Fukui, gestor de renda fixa e sócio da Stratton Capital, explica que a ameaça de menor oferta de energia vinha empurrando a curva de juros para cima. Junto com ela, os spreads pagos pelas empresas também subiram, o que fez muitos papéis, sobretudo os de vencimento mais longo, perderem valor.“Esse cenário pode mudar agora se o Fed enxergar um alívio na pressão sobre os preços”, diz. Com o petróleo em queda, avalia, a curva tende a achatar e o trabalho do Fed fica mais fácil. Para ele, o banco central deve tentar ser “o mais neutro possível para não criar nenhuma reação exagerada dos mercados”.Leia também: Crédito privado: Selic que leva dívida a quase 20% ao ano tira o sono do mercadoSegundo Caio Zylbersztajn, sócio da Nord Investimentos, o foco deve estar na postura de Warsh quando o tema é inflação. “É importante entender como ele vai conduzir a política monetária nos próximos meses”, afirma. A casa mantém uma postura “bastante leve” em renda fixa global, com foco nos Estados Unidos.EUA: juro alto e porto seguroZylbersztajn prefere o risco soberano diante dos spreads de crédito privado ainda comprimidos: títulos do Tesouro americano e papéis garantidos por agências governamentais, como os mortgage-backed securities, lastreados em hipotecas.Na escolha dos vencimentos, a Nord prefere prazos curtos a intermediários por conta das incertezas que ainda cercam o fim do conflito no Oriente Médio. “A gente já viu alguns acordos anteriores que não foram concretizados”, diz Zylbersztajn.O argumento cambial pesa ainda mais em sua análise. O euro tem um defeito para o brasileiro: anda junto com o real. “A gente prefere ter o equilíbrio com real e dólar, e não real e euro, que acaba concentrando um risco de ciclicalidade global”, diz. O dólar age como um contraponto para movimentos cíclicos globais e é o melhor par para equilibrar um portfólio majoritariamente investido no Brasil.Fukui também aponta os EUA como o porto menos exposto à atual onda inflacionária e enxerga oportunidade na parte intermediária da curva. “Ainda há bonds interessantes”, afirma.Leia também: Tesouro IPCA+ volta a pagar mais após divulgação da prévia do PIBEuropa e emergentes no radarBruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, sugere privilegiar economias maduras. Para além dos EUA, sua preferência são os mercados desenvolvidos com sistemas financeiros maduros, sobretudo os principais países europeus. Na escolha entre soberanos e crédito privado, ele recomenda os dois: o crédito privado “costuma trazer spreads que hoje ganharam atratividade”, mas requer análise mais profunda do que títulos de governo.Paulo Monteiro, head da Gravus Capital, tem uma visão mais abrangente. “Para quem quer diversificar por país além dos Treasuries americanos, as oportunidades mais interessantes estão na dívida de mercados emergentes e no crédito corporativo global”, afirma, recomendando o acesso por meio de ETFs, como o EMB (Nasdaq), ou fundos especializados. O que ele descarta é a compra direta de papéis de empresas emergentes: “o custo operacional é alto e a liquidez é baixa, o que pode transformar uma boa tese em um problema na saída.”Proteção cambial é boa ideia?Se a decisão for sair do dólar, há um consenso entre os especialistas: o hedge cambial, na maioria dos casos, não vale a pena. “A beleza de se diversificar internacionalmente é justamente estar exposto às moedas fortes, reduzindo a concentração na moeda brasileira que, invariavelmente, perde poder de compra global em janelas temporais mais extensas”, diz Perri.Monteiro explica o custo: os títulos são longos e pagam pouco, enquanto os contratos de proteção são caros e de prazo curto, exigindo renovações sucessivas. A saída, segundo ele, é assumir a exposição cambial direta e tratá-la como fonte adicional de retorno e descorrelação em relação ao real.Em quais prazos aportar?Com incertezas no radar, o prazo dos títulos divide os especialistas. Fukui privilegia o meio da curva, entre 5 e 10 anos, faixa que permite aproveitar rentabilidade atraente e buscar crédito de qualidade para “ganhar um prêmio sobre a curva de juros comprando títulos de emissores que paguem um bom spread”.Monteiro recomenda construir posição aos poucos. “Como ainda não sabemos onde fica o teto desse movimento, o mais prudente é montar a posição de forma gradual, em vez de alongar tudo de uma vez”, afirma, para travar taxas altas por mais tempo e capturar a valorização dos papéis quando o ciclo virar.Perri prefere encurtar, reconhecendo que “horizontes superiores a 5 anos incomodam um pouco”.Como acessar a renda fixa internacionalZylbersztajn recomenda abrir uma conta no exterior para sair do risco de jurisdição e ter acesso a um mercado mais amplo. “É essencial que os investidores de alto patrimônio tenham uma parte relevante do patrimônio lá fora”, afirma.Mas abrir conta no exterior não é obrigatório. Monteiro lembra que o investidor consegue se expor sem sair do país por meio de ETFs internacionais listados na B3 e de fundos locais, caminho com custo mais baixo que dispensa câmbio e burocracia. Abrir conta no exterior, por outro lado, “ficou muito mais simples e barato do que já foi” e oferece a proteção de manter parte do patrimônio em outra jurisdição. “Na prática, os dois caminhos se complementam”, diz.As correções recuperaram parte do texto, então a redução final ficou em torno de 16% em relação ao original, ainda um corte expressivo sem perda de informação ou de fidelidade às fontes.The post EUA deixam aberta janela histórica em títulos de renda fixa em dólar appeared first on InfoMoney.
