Manuel Francisco dos Santos, o ponta brasileiro conhecido como Garrincha, nasceu com um corpo que parecia inadequado para o futebol.Sua perna esquerda era arqueada para fora; a direita, mais longa em mais de uma polegada, curvava-se para dentro. Segundo diferentes relatos, ele nasceu com uma condição congênita na coluna ou contraiu poliomielite quando menino. Sua irmã mais velha achava que ele se parecia com um passarinho, por isso lhe deu o apelido de Garrincha, uma palavra do português local para corruíra.Parecia pouco provável que ele crescesse para jogar futebol, muito menos para levar o Brasil aos seus dois primeiros títulos da Copa do Mundo — em 1958 e 1962 — como atacante pela ponta direita da equipe. Em 1962, ele empatou na artilharia e foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo.LEIA MAIS: Semifinais da Copa: veja quais são os jogos, datas e horários até a finalGarrincha atuava com uma magia tão encantadora que alguns especialistas, ainda hoje, o consideram insuperável no drible.Ele tinha equilíbrio refinado, uma arrancada veloz, o senso de finta de um boxeador e uma mudança de direção rápida e imprevisível. Colocava o pé sobre a bola e desafiava um defensor a tentar tirá-la dele. Driblava um marcador e depois deixava que ele se aproximasse antes de dar um chute debochado para o gol.Quando Garrincha jogava, “o campo se transformava em um picadeiro de circo, a bola em uma fera domesticada, o jogo em um convite para uma festa”, escreveu Eduardo Galeano, escritor uruguaio por vezes conhecido como o poeta laureado do futebol, sobre Garrincha em “Futebol ao Sol e à Sombra” (1995).“Como uma criança defendendo seu bichinho de estimação, Garrincha não largava a bola, e ele e a bola faziam travessuras diabólicas que levavam as pessoas às gargalhadas.”“Em toda a história do futebol”, acrescentou Galeano, “ninguém fez mais gente feliz.”A seleção brasileira nunca perdeu nenhuma partida em que Garrincha atuou até a sua 50ª e última, durante a Copa do Mundo de 1966. Àquela altura, ele já não conseguia superar os danos no joelho direito, e sua vida pessoal havia se complicado com abuso de álcool, dificuldades financeiras e problemas com mulheres. Ele entrou em depressão e, mais de uma vez, tentou tirar a própria vida.Ele morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos. A causa foi cirrose hepática, gastrite, demência e psicose aguda relacionada ao álcool, escreveu Ruy Castro em uma biografia direta e sem suavizações, “Garrincha: O Triunfo e a Tragédia do Herói Esquecido do Futebol Brasileiro”, publicada originalmente em português em 1995.Em campo, ele dividiu o gramado com o grande Pelé, sete anos mais novo, e os dois jamais perderam uma partida em que atuaram juntos. Mas, enquanto Pelé se tornou uma divindade do futebol, visto como um homem do mundo, Garrincha permaneceu, na prática, um garoto falho e cativante do bairro, querido pelo público brasileiro por sua forma alegre de viver o esporte.“Enquanto os brasileiros colocam Pelé em um pedestal, eles não o amam da maneira como amam Garrincha”, escreveu Alex Bellos em “Futebol: O Modo Brasileiro de Viver” (2002).“Pelé não reflete os desejos nacionais”, acrescentou Bellos. “Pelé, acima de tudo, simboliza a vitória. Garrincha simboliza jogar pelo simples prazer de jogar. O Brasil não é um país de vencedores. É um país de pessoas que gostam de se divertir.”Leia também: Copa é sucesso nos EUA, mas será o suficiente para popularizar futebol?Origem pobreManuel Francisco dos Santos nasceu em 28 de outubro de 1933, em uma família pobre no vilarejo de Pau Grande, no Brasil, cerca de 64 quilômetros ao norte do Rio de Janeiro. Ele tinha ascendência indígena, e seus avós haviam sido escravizados. Seu pai, Amaro Francisco dos Santos, trabalhava como vigia em uma fábrica têxtil local. Sua mãe, Maria Carolina dos Santos, criava cabras, porcos e galinhas.Depois de avançar até a terceira série, Garrincha abandonou a escola e demonstrou pouco interesse por qualquer coisa além de caçar, pescar e jogar futebol. Sua primeira bola foi feita de jornais enfiados nas meias de uma tia. Ele aprendeu a jogar descalço, desenvolvendo seu drible astuto em um campo irregular de barro, onde um passo em falso podia significar perder a bola ribanceira abaixo.Jogou por um time de fábrica em Pau Grande, depois em uma liga regional, ingressando em um clube profissional chamado Serrano, onde ganhou cerca de um dólar por partida em 1951, um pouco menos de 13 dólares em valores de hoje. Em 1953, quando estava prestes a completar 20 anos, teve sua grande ascensão profissional no Botafogo, um importante clube do Rio.Criador do “olé”?Garrincha é frequentemente apontado como inspiração para os primeiros gritos de “Olé” no futebol, durante uma partida de clube na Cidade do México, em fevereiro de 1958. Enquanto atormentava um defensor, passando a bola por entre as pernas do pobre homem e driblando ao seu redor, a multidão em êxtase vibrava como se estivesse assistindo a uma tourada.Ele entrou para a seleção brasileira em 1955. Durante a Copa do Mundo de junho de 1958, o Brasil manteve Garrincha no banco nas duas primeiras partidas. Ele começou jogando o terceiro jogo, ao lado de Pelé, então com 17 anos, contra a União Soviética. Em um início frenético, os dribles audaciosos de Garrincha deixaram três soviéticos caídos no chão, e o estádio se encheu de risos.Ele acertou um chute na trave e depois passou para Pelé, que finalizou na bola desviada no travessão. No terceiro minuto, o atacante Vavá marcou, dando ao Brasil a vantagem de 1 a 0 em uma vitória final por 2 a 0. Gabriel Hanot, jornalista francês, chamou aquilo de “os três maiores minutos da história do futebol”.Na vitória por 5 a 2 sobre a Suécia na final, Garrincha deu assistência para dois gols com cruzamentos da ponta direita. Quatro anos depois, após Pelé sofrer uma lesão na virilha na segunda partida do Brasil na Copa do Mundo de 1962 e perder o restante do torneio, Garrincha ajudou a vencer a competição com atuações individuais notáveis. Marcou com as pernas e com a cabeça — algo raro na época — fazendo dois gols nas quartas de final e dois nas semifinais, e depois jogou com febre na final, uma vitória por 3 a 1 sobre a Tchecoslováquia.Um jornal chileno, El Mercurio, perguntou em sua manchete: “Garrincha, de que planeta você veio?”Vício, escândalo e morteMas, na Copa do Mundo de 1966, da qual o Brasil saiu de forma apagada, sua vida já havia tomado um rumo trágico. Sua bebida era alarmante. Ele deixou a primeira esposa, Nair Marques, e as oito filhas do casal para se casar com a renomada cantora de samba Elza Soares, em uma união tumultuada que se transformou em escândalo nacional.Em 1969, supostamente dirigindo bêbado, sem faróis e no escuro, Garrincha se envolveu em um acidente que matou sua sogra, que estava no banco do passageiro. Soares deixou Garrincha em 1977, depois que ele lhe deu socos e chutes. Mais tarde, os dois se divorciaram.Apesar do caos trágico de seus anos finais, sua morte em 1983 provocou uma onda de luto nacional. Torcedores, amigos e ex-companheiros de equipe passaram diante de seu caixão aberto em um velório no famoso Estádio do Maracanã, no Rio, e depois se alinharam pelas estradas e passarelas de pedestres enquanto o caixão era levado no alto de um caminhão dos bombeiros até um cemitério a cerca de 64 quilômetros dali, perto de Pau Grande.A inscrição em sua lápide evocava uma das expressões pelas quais era conhecido: “Aqui descansa em paz aquele que foi a Alegria do Povo.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Garrincha, o brilhante e quebrado herói brasileiro da Copa do Mundo appeared first on InfoMoney.
