Um novo relatório do JPMorgan, divulgado nesta terça-feira (30), mostra que o mercado financeiro começou a recalcular mais precisamente os possíveis impactos das instabilidades climáticas e das oscilações operacionais sobre as grandes companhias do agronegócio nacional. Em uma revisão de seus modelos matemáticos, o JPMorgan estendeu o seu horizonte de projeções até o final de 2027, atualizando as premissas macroeconômicas em meio a um cenário de custos voláteis de energia e insumos.A principal conclusão dos analistas aponta para uma clara divergência de risco e retorno entre as principais empresas abertas do setor, recomendando uma estratégia de valor relativo que envolve posições opostas nos papéis. “De modo geral, mantemos uma postura amplamente defensiva em relação ao setor e continuamos a ver a SLC Agrícola (SLCE3) como uma possível fonte de recursos, embora reconheçamos que estratégias de valor relativo possam ser cada vez mais debatidas, à medida que os investidores ponderam o que já está precificado em relação aos próximos catalisadores”, diz o relatório.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai com bancos, VALE3 e PETR4Bolsas dos EUA sobem para conseguir o melhor primeiro semestre em 5 anosEl Niño dita a grande assimetria do setorDe acordo com o banco de investimentos, a tese de preferência da 3tentos (TTEN3) em detrimento à SLC ganha força ao analisar os impactos regionais do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. O relatório ressalta que o Brasil não sofre um impacto uniforme; o evento costuma trazer secas e calor extremo para as regiões Norte e Nordeste, enquanto injeta volumes de chuva acima da média histórica no Sul.Assim, a conclusão dos analistas é que essa divisão climática cria riscos diretos para o portfólio da SLC e atua como um catalisador de resiliência para a 3tentos. O risco no Cerrado e Nordeste é maior para a SLC, uma vez que aproximadamente 49% da área total cultivada pela empresa está concentrada na região Nordeste, distribuída entre o Maranhão (217 mil hectares), Bahia (158 mil hectares) e Piauí (35 mil hectares). O El Niño forte eleva o risco de estresse hídrico e quebra de produtividade nessas localidades, além de ameaçar o Mato Grosso com atrasos no início da estação chuvosa. Esse atraso no plantio da soja gera um efeito cascata perigoso, empurrando a janela do milho segunda safra (“safrinha”) para um período de altíssima vulnerabilidade climática.Com relação à blindagem no Sul, os impactos do clima na 3tentos (TTEN3) são indiretos, refletidos no desempenho dos produtores da sua região core (principal) de atuação, concentrada no Rio Grande do Sul. Em anos de El Niño, a maior umidade no solo apoia a produtividade local de grãos, o que impulsiona os volumes de originação de soja, comercialização e venda de insumos da companhia. Leia tambémCalor derrete asfalto e para operação de transporte público em cidade da AlemanhaA circulação do sistema de transporte público foi totalmente suspensa após as temperaturas de quase 40°C tornarem líquida a vedação à base de betume,Mesmo que o excesso de chuva possa eventualmente atrapalhar o fluxo logístico e a gestão do capital de giro de curto prazo, os fundamentos estruturais da empresa permanecem muito mais protegidos contra perdas catastróficas.SLC Agrícola pressionadaOs analistas do JPMorgan optaram assim por adotar um tom mais cauteloso com a SLC Agrícola, primordialmente por conta da deterioração das margens operacionais e o aumento das despesas financeiras líquidas.Segundo o documento, o debate de curto prazo entre os investidores migrou da forte desvalorização que as ações já sofreram para as incertezas reais sobre a produtividade futura e a eficácia das travas de preços.Com um panorama mais pressionado, os analistas ajustaram negativamente as suas expectativas de geração de caixa para o próximo ano. O JPMorgan cortou o preço-alvo da companhia de R$ 19 para R$ 18, “refletindo um cenário operacional ainda desafiador (risco climático e margens mais apertadas) e um encargo financeiro líquido mais elevado em nossas projeções”. A recomendação sobre as ações é neutra.Além disso, eles projetam o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado de 2026 (IFRS 16) em R$ 2,7 bilhões, o que equivale a uma queda de aproximadamente 6% sob a visão anterior do banco de investimentos. O posicionamento do banco hoje roda abaixo do consenso de mercado, enquanto as premissas de área plantada seguem inalteradas.Para agravar o sentimento do mercado, o exercício do direito de preferência para a aquisição das terras do “Bloco Mato Grosso” da Radar, controlada pela Cosan (CSAN3), gerou um desconforto técnico sobre as ações, segundo o JPMorgan. A SLC fechou a compra de 41,2 mil hectares (sendo 28,8 mil agricultáveis) por R$ 1,85 bilhão. Os analistas reconheçam a alta qualidade e a localização estratégica das fazendas, mas o desconto implícito de 15% a 20% em relação ao NAV (Valor Líquido dos Ativos) ficou muito abaixo do desconto de 52% com o qual a própria ação da SLC é negociada no mercado. Leia tambémPlano Safra cresce, mas frustra agro ao ficar R$ 127 bi abaixo da demanda do setorGoverno anuncia R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, valor recorde, mas inferior ao defendido por entidades do agronegócio e por ministérios envolvidos nas negociaçõesAlém disso, o banco alerta que novos anúncios de aquisições de terras arrendadas no Maranhão poderiam ser vistos de forma ainda menos favorável, devido ao endividamento atual e ao custo de capital elevado.3tentos consolidadoEm uma direção oposta, a 3tentos teve seus números revisados para cima, situando-se acima do consenso do mercado para o ano de 2027. O banco reitera que o modelo de negócios integrado da companhia, que atua na venda de defensivos e fertilizantes, na originação de grãos e na industrialização, garante uma opcionalidade de crescimento única e maior blindagem contra crises mais fortes.O otimismo com a ponte de resultados futuros e a evolução das margens operacionais justificou uma revisão altista no valuation. O JPMorgan subiu o preço-alvo das ações de R$ 20 para R$ 23, reiterando a recomendação de compra do papel e mantendo a companhia como principal escolha do setor. Atualmente, a ação é negociada a múltiplos de 7,1 vezes o P/L (Preço sobre Lucro) e 5,4 vezes o EV (Valor da Firma)/Ebitda projetados para 2027.O JPMorgan projeta um crescimento anual composto (CAGR) sólido de 14% para o lucro por ação nos próximos cinco anos, sustentado pela duplicação do faturamento orgânico e pelo ganho de rentabilidade na divisão industrial, puxado pelo ramp-up (fase de aceleração de produção) da nova fábrica de etanol de milho. Os analistas apontaram que o modelo incorpora uma visão mais rigorosa sobre a intensidade do balanço e uma maior pressão no capital de giro, elevando a projeção de dívida líquida para 2026, mas reforçam que o perfil de risco e retorno fundamental é o mais vantajoso do setor.The post JPMorgan aponta forte assimetria e divide estratégias de ações do agro sob o El Niño appeared first on InfoMoney.
