Na corrida da IA, EUA lideram em modelos, mas China tem outras vantagens

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WASHINGTON — Não faltam temas para discussão quando o presidente Donald Trump recebe o líder chinês Xi Jinping para uma visita de Estado iniciada nesta quarta-feira à noite. Entre os assuntos estão a guerra com o Irã, Taiwan e as tarifas comerciais.Mas nenhum tema despertou tanta atenção global nas últimas semanas quanto a possibilidade de os dois lados chegarem a algum entendimento sobre o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial. O debate em rápida transformação sobre os riscos da IA tem consumido o Vale do Silício, Washington e, nos últimos dias, as Nações Unidas. Alguns observadores chegaram a comparar a cúpula entre Estados Unidos e China às conversas da Guerra Fria durante a corrida armamentista nuclear.Embora alguns considerem que os riscos sejam de escala civilizacional, as expectativas para um acordo relevante permanecem baixas. Os dois países estão engajados em uma corrida pela IA que ambos consideram decisiva para obter vantagem militar, tecnológica e econômica, enquanto a desconfiança mútua segue elevada, segundo especialistas em política externa.Analistas ocidentais geralmente estimam que os Estados Unidos mantenham uma vantagem de cerca de seis meses sobre a China no desenvolvimento dos modelos mais avançados. Mas esse número esconde a complexidade da relação entre os dois países e torna ainda mais difícil alcançar um consenso sobre como lidar com os riscos associados à IA.A seguir, um panorama das áreas em que os Estados Unidos levam vantagem sobre a China e onde estão ficando para trás em relação ao seu principal rival geopolítico.Leia tambémAltman e Amodei pedem coordenação global para IA em raro discurso conjunto na ONUCEOs da OpenAI e da Anthropic alertaram para riscos existenciais da inteligência artificial diante do Conselho de Segurança da ONU e defenderam padrões internacionais de segurança para a tecnologiaAnthropic diz que IA identificou sistema genético inédito semelhante ao CRISPREmpresa afirma que o modelo Claude analisou bases de DNA e ajudou a detectar um sistema enzimático com características próximas às da tecnologia de edição genética; descoberta ocorre após expansão da companhia em pesquisa biológicaAcesso aos chips mais avançados é fundamentalOs Estados Unidos possuem uma vantagem inquestionável: os semicondutores. A maior parte dos chips especializados utilizados para desenvolver e operar sistemas de inteligência artificial é projetada por empresas americanas, incluindo a Nvidia, atualmente a companhia mais valiosa do mundo.“As pessoas que desenvolveram os chips mais rápidos estão aqui. Elas não estão na China”, afirmou Andrew Feldman, CEO da fabricante de chips Cerebras.Ao longo da última década, três administrações presidenciais americanas impuseram controles de exportação que limitaram o acesso chinês aos chips mais avançados. Mesmo tentando contornar essas restrições, pesquisadores chineses frequentemente apontam a escassez de semicondutores como o principal obstáculo ao desenvolvimento da IA no país.As principais empresas chinesas gastaram centenas de milhões de dólares para garantir suprimentos. Para burlar as restrições americanas, costumam adquirir acesso remoto a centros de dados localizados fora da China. Essa estratégia ajudou a reduzir a distância tecnológica entre os dois países no último ano.Ao mesmo tempo, a China investe pesadamente para construir sua própria indústria de semicondutores. Mas, segundo a própria Huawei, que lidera esse esforço, ainda faltam anos para que os chips chineses alcancem o desempenho dos modelos atuais da Nvidia.Empresas chinesas de IA afirmam utilizar chips da Huawei, mas esses componentes ainda não parecem suficientes para impulsionar tecnologias de ponta. Em geral, são mais utilizados para atender usuários em serviços já disponíveis na internet.Mesmo com a ajuda da Huawei, empresas como a Moonshot seguem enfrentando dificuldades para encontrar capacidade computacional suficiente para atender à demanda.A China enfrenta menos resistências políticasPesquisas de opinião mostram que a inteligência artificial vem se tornando cada vez mais impopular nos Estados Unidos. O tema já se transformou em uma questão relevante para as eleições legislativas de meio de mandato.Muitos americanos demonstram preocupação com os efeitos da tecnologia sobre empregos, educação e até mesmo sobre a segurança da humanidade. Uma pesquisa recente do Pew Research Center apontou que 60% dos americanos se sentem desconfortáveis com a instalação de um novo data center em sua região.Embora Trump tenha classificado os pedidos por desaceleração da IA como uma “farsa”, um número crescente de parlamentares republicanos e democratas defende propostas para regular a tecnologia, especialmente após revelações envolvendo agentes autônomos de IA que teriam invadido sistemas de outras empresas.A China, por sua vez, não precisa lidar com um debate público tão intenso. Apesar das limitações de pesquisas de opinião no país, os levantamentos apontam consistentemente um entusiasmo maior pela tecnologia.Uma pesquisa da KPMG realizada em 47 países mostrou que 69% dos chineses acreditam que os benefícios da IA superam os riscos, contra apenas 35% dos americanos. Além disso, a tecnologia já está amplamente integrada ao cotidiano chinês, com robôs de atendimento em hotéis e restaurantes e assistentes médicos baseados em IA.A economia americana tem sido mais resilienteOutra vantagem dos Estados Unidos é o comportamento da economia durante o boom da inteligência artificial. Os índices acionários seguem próximos de recordes históricos e, até o momento, os temores de uma bolha ligada à IA não se materializaram.Há sinais de desaceleração salarial em profissões mais expostas à tecnologia e de redução de vagas, especialmente entre trabalhadores mais jovens. O processo de busca por emprego também ficou mais competitivo devido ao uso de IA na elaboração de currículos e seleção de candidatos.Ainda assim, os danos econômicos previstos por muitos especialistas não apareceram de forma significativa.Na China, a situação é diferente. Desemprego elevado entre os jovens, consumo enfraquecido e pressões deflacionárias ameaçam comprometer os investimentos bilionários em IA. Economistas chineses vêm alertando que a economia pode se tornar ainda mais vulnerável por causa da concentração de investimentos no setor.Modelos americanos e chineses seguem caminhos opostosNos Estados Unidos, empresas como OpenAI e Anthropic mantêm controle rígido sobre seus modelos de IA. Elas desenvolvem mecanismos de proteção para evitar o uso indevido das ferramentas em desinformação, ataques cibernéticos e outras atividades consideradas perigosas.À medida que aumentam as preocupações sobre os riscos da tecnologia, essas empresas defendem regulações federais que submetam os sistemas a avaliações antes de seu lançamento.Na China, a estratégia é diferente. Empresas como DeepSeek, Moonshot e Z.ai frequentemente disponibilizam seus modelos mais avançados em código aberto, permitindo que desenvolvedores utilizem e modifiquem a tecnologia livremente.Defensores dessa abordagem afirmam que ela acelera a inovação ao permitir a colaboração de milhares de pesquisadores e empresas. Caso regulações mais rígidas desacelerem o desenvolvimento de projetos de código aberto nos Estados Unidos, a China poderá conquistar uma vantagem relevante.Segundo especialistas, se os melhores modelos abertos passarem a ser chineses, desenvolvedores de todo o mundo tenderão a construir aplicações sobre essas plataformas. Esse movimento já começa a aparecer até mesmo no Vale do Silício.A eletricidade pode ser o próximo diferencialAlguns especialistas acreditam que, se a China conseguir reduzir sua dependência de chips estrangeiros, poderá ultrapassar os Estados Unidos graças a outra vantagem estratégica: a infraestrutura elétrica.Os chips mais avançados exigem enormes quantidades de energia para operar. A demanda é tão elevada que grandes empresas americanas passaram a recorrer a fontes próprias, como energia eólica, reatores nucleares e turbinas a gás instaladas junto aos centros de dados.“Em um nível fundamental, a indústria de tecnologia está tentando transformar eletricidade em inteligência”, disse Andrew Feldman. “É como uma máquina do Dr. Seuss: entram chips e energia; sai inteligência.”Embora reconheça a liderança americana em semicondutores, Feldman acredita que a China pode ganhar terreno graças aos anos de investimentos em sua rede elétrica.“Isso será uma enorme vantagem”, afirmou. “Nossa rede elétrica ainda é uma tecnologia dos anos 1950.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Na corrida da IA, EUA lideram em modelos, mas China tem outras vantagens appeared first on InfoMoney.

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