O verdadeiro gatilho para a Bolsa brasileira pode vir depois da eleição, diz JPMorgan

Blog

A poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial, o JPMorgan avalia que os ativos brasileiros ainda refletem apenas um pequeno prêmio de risco eleitoral, apesar da disputa apertada entre o presidente Lula e o candidato Flávio Bolsonaro. Para a Bolsa, o banco vê ações baratas e investidores pouco posicionados, mas ressalta que uma nova onda consistente de valorização dependerá principalmente de uma queda dos juros em direção a níveis mais neutros.O cenário-base do banco é de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto mercados de previsão citados no relatório atribuíam aproximadamente 55% de probabilidade de vitória a Bolsonaro e 45% a Lula. Ao mesmo tempo, as pesquisas eleitorais mostravam uma disputa acirrada, com simulações de segundo turno dentro das margens de erro.O principal recado para os investidores, entretanto, é que o resultado das urnas será apenas o primeiro passo. Para o JPMorgan, a capacidade do próximo governo de transformar promessas de campanha em política econômica dependerá da composição do Congresso, com atenção especial ao Senado. O banco destaca que o novo governo herdará um quadro desafiador, marcado por dívida pública crescente e uma economia em desaceleração e com baixo crescimento de produtividade.Bolsa está barata, mas juros precisam cairPara as ações brasileiras, o JPMorgan chama atenção para uma combinação em tese atrativa: valuations baixos e posicionamento leve dos investidores. A ressalva é que essa configuração não é propriamente nova, já que vem sendo observada em boa parte do período pós-pandemia.Na avaliação do banco, uma nova fase de valorização da Bolsa somente poderá ganhar força se os juros caminharem em direção a patamares neutros. Esse movimento permitiria uma reprecificação dos múltiplos, com potencial adicional caso seja acompanhado por reformas estruturais. Em um cenário de ausência de mudanças na política econômica, por outro lado, a pressão negativa poderia ser relativamente contida inicialmente, mas se tornar mais desafiadora com o passar do tempo.Leia tambémEleições podem destravar o Ibovespa? Confira o que esperar em semana decisivaCom o primeiro turno no radar, investidores acompanham com cautela um Ibovespa lateralizado e pressionado por duas semanas consecutivas de queda.O MSCI Brazil negociava a 8,9 vezes o lucro projetado para os 12 meses seguintes, segundo a análise. O JPMorgan divide os últimos dez anos em quatro regimes macroeconômicos e políticos: crise, deterioração, melhora e ajuste estrutural. Historicamente, esses períodos apresentaram múltiplos médios de 7 vezes, 8,3 vezes, 10,9 vezes e 13,3 vezes, respectivamente.Na prática, a comparação sugere que o mercado está atualmente mais próximo de uma avaliação compatível com um regime de deterioração do que de melhora.Se o Brasil migrasse para o cenário de“melhora”, o banco calcula um potencial de valorização de 22% para o MSCI Brazil frente aos níveis usados no relatório. Em uma mudança mais profunda para um cenário de“ajuste estrutural”, o potencial chegaria a aproximadamente 50%. Já os cenários de deterioração e crise implicariam quedas de 7% e 21%, respectivamente.Isso não significa, contudo, que uma simples mudança de governo produziria automaticamente essa reprecificação. O banco afirma que o mercado precisaria enxergar uma sequência de eventos após a eleição, incluindo anúncio da equipe econômica e das principais posições do governo, definição de objetivos fiscais de curto e longo prazo, construção de apoio no Congresso e sinais de popularidade suficientes para executar a agenda.Eleição: movimento já em outubroO histórico mostra que o período eleitoral pode produzir movimentos expressivos na Bolsa, mas nem sempre na direção inicialmente esperada.O JPMorgan observa que o desempenho recente do Brasil é atípico para períodos eleitorais. Tradicionalmente, quando a Bolsa apresenta desempenho melhor antes da eleição, tende a ter uma reação mais fraca no mês do pleito, e vice-versa.Para 2026, porém, os estrategistas alertam que não necessariamente haverá repetição de 2014. Entre as diferenças apontadas estão a possibilidade de uma composição mais conservadora do Senado e uma eventual vantagem da oposição já no primeiro turno. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Confira o que movimenta Bolsa, Dólar e Juros nesta segundaÍndices futuros dos EUA recuam, enquanto petróleo dispara 4%Caso a política econômica permaneça inalterada, o banco vê risco de uma dinâmica semelhante àquele período; se houver uma mudança em direção a maior disciplina fiscal, o potencial positivo seria maior.Dólar a R$ 4,90 ou R$ 5,50?No câmbio, o JPMorgan considera que o real não incorpora um prêmio de risco eleitoral relevante e está próximo do valor justo de curto prazo estimado pelo banco. Ao mesmo tempo, as posições compradas em real estão elevadas em comparação com eleições anteriores, o que deixa a moeda vulnerável caso o ambiente externo se deteriore.Em um desfecho percebido como desfavorável à consolidação fiscal, a volatilidade precificada pelo mercado seria compatível com o dólar avançando para aproximadamente R$ 5,50, segundo o relatório.No sentido contrário, um resultado significativamente mais favorável exigiria, na visão dos estrategistas, compromissos fiscais claros e uma estratégia politicamente crível para implementá-los. Caso o mercado espere apenas mudanças fiscais incrementais, e não uma reforma estrutural, o JPMorgan calcula espaço para uma valorização do real de aproximadamente 6%, levando o dólar a testar a região de R$ 4,90.Apesar dessa amplitude de cenários, o banco mantém posição neutra no real e exposição à queda da moeda brasileira por meio de estruturas com opções, entendendo que a relação risco-retorno no câmbio está razoavelmente precificada.Juros – espaço para movimentos grandesA avaliação é semelhante no mercado de taxas. O JPMorgan recomenda posição neutra antes do primeiro turno e considera que a relação entre risco e retorno está relativamente equilibrada.Em um cenário otimista, contudo, os juros poderiam recuar cerca de 1 ponto percentual, com os rendimentos dos títulos do GBI-EM brasileiro chegando inicialmente à região de 13%. A melhora fiscal reduziria os prêmios de risco e os custos de juros do governo, potencialmente criando um círculo virtuoso para a dinâmica da dívida.Leia mais: Lula versus Flávio Bolsonaro: quais ações devem ganhar em cada cenário das eleições?Num cenário pessimista, o movimento poderia ser mais intenso na direção contrária: o banco estima espaço para alta de aproximadamente 1,5 ponto percentual, levando os rendimentos para perto de 15,5%. A parte mais longa da curva seria a principal responsável pelo ajuste, por concentrar a percepção de risco fiscal.60% dos investidores apostam em BolsonaroUma pesquisa do próprio JPMorgan com investidores de mercados emergentes ajuda a medir como o mercado chega à eleição.Ponderando as respostas pelos ativos sob gestão, 59,7% esperam vitória de Flávio Bolsonaro, enquanto 40,3% projetam a reeleição de Lula. Nenhum participante consultado indicou expectativa de vitória de outro candidato.O levantamento também mostra que os investidores esperam que câmbio e juros concentrem os principais movimentos eleitorais. Para 47% dos entrevistados, o real será o ativo mais impactado pela eleição; 38% apontam os títulos em moeda local e outros 15% destacam os derivativos de juros. Praticamente nenhum investidor espera que crédito soberano ou corporativo seja a classe de ativos mais afetada.A questão fiscal aparece novamente como determinante para o pós-eleição. No levantamento do banco, 47% dos investidores esperam medidas moderadas de consolidação fiscal, entre 0,5% e 1,5% do PIB em 2027. Outros 39% preveem medidas menores, inferiores a 0,5% do PIB. Apenas 1% espera ajuste superior a 1,5% do PIB, enquanto 7% projetam anúncios expansionistas.Congresso pode importar tanto quanto o presidenteO relatório também coloca forte ênfase na eleição legislativa. Em 4 de outubro, serão renovadas todas as 513 cadeiras da Câmara e 54 das 81 vagas do Senado. Para o JPMorgan, a composição dessas Casas determinará até onde o próximo presidente conseguirá avançar com sua agenda.O banco destaca especialmente o Senado, tanto pelo papel na aprovação de medidas legislativas quanto pelas atribuições relacionadas a indicações para o Supremo Tribunal Federal, Procuradoria-Geral da República, Banco Central e órgãos reguladores.A dificuldade fiscal reforça a importância dessa governabilidade. A dívida bruta está em cerca de 83% do PIB, ante 74% no período da eleição anterior, enquanto o resultado fiscal corresponde a déficit de 9,4% do PIB, contra 4% anteriormente. Em contrapartida, o juro real está mais alto e a volatilidade cambial é menor do que em 2022, fatores que, segundo o banco, deixam o mercado sob alguns aspectos mais resiliente.No conjunto, portanto, o JPMorgan vê a eleição como um potencial ponto de inflexão para os ativos brasileiros, mas não considera o nome do vencedor suficiente para determinar sozinho a direção da Bolsa, do real e dos juros.Na Bolsa, o valuation baixo cria espaço para valorização se o resultado eleitoral vier acompanhado de queda dos juros, melhora fiscal e capacidade política para executar mudanças. No câmbio e nas taxas, por outro lado, o banco entende que o risco-retorno está mais equilibrado antes do primeiro turno.O grande teste começa depois da apuração uma vez que, para que o desconto da Bolsa se transforme em uma reprecificação mais duradoura, a eleição precisaria abrir caminho para uma mudança do regime econômico percebido pelos investidores, saindo da atual faixa de deterioração e avançando primeiro para um cenário de melhora, e, em uma hipótese mais ambiciosa, para um ajuste estrutural.The post O verdadeiro gatilho para a Bolsa brasileira pode vir depois da eleição, diz JPMorgan appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *