As desistências dos pré-candidatos Kim Kataguiri (Missão) e Paulo Serra (PSDB), que somavam 10% das intenções de voto ao governo de São Paulo na última pesquisa Genial/Quaest, acenderam alerta e ampliaram o impasse entre os dois principais partidos da esquerda no estado. O ex-ministro Márcio França, do PSB, sugeriu uma entrada tardia na disputa ao Palácio Bandeirantes para aumentar as chances de levar o pleito ao segundo turno, o que gerou pronta reação e resistência do PT. O temor é que esses eleitores migrem para o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) contra o ex-ministro Fernando Haddad (PT), aumentando as chances de vitória em primeiro turno e impactando no palanque estadual do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.— O risco é ter, no segundo turno nacional, uma eleição que já foi encerrada em São Paulo. Aí fica uma eleição perigosa, porque pode dar uma diferença grande de votos — argumentou o ex-ministro em entrevista ao canal TMC, reproduzida em suas redes sociais ontem. — O que a gente tem como prioridade, claro, é a permanência de Lula e da democracia. Essa é a prioridade número um, e o restante é consequência disso.Na semana passada, França já levou esse posicionamento ao presidente estadual do PT, o deputado federal Kiko Celeguim. Ontem, interlocutores do ex-ministro confirmaram ao GLOBO que ele está disposto a concorrer ao Bandeirantes. O discurso foi reforçado com as desistências e a consequente polarização de um pleito que já se mostrava concentrado. França reitera que não seria uma decisão “antagônica a Haddad”, e sim uma tentativa de fortalecer o presidente Lula na eleição presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL), que tem o apoio de Tarcísio.Não a ’cavalo de pau’Petistas reagiram ao longo do dia. O deputado federal Jilmar Tatto, que coordena a comunicação de Haddad, rejeitou aquilo que chamou como “cavalo de pau” na disputa. Outros articuladores políticos com trânsito na campanha também afirmaram ao GLOBO que a hipótese não deve prosperar e encontra resistência nas fileiras do partido.Coordenador do plano de governo de Haddad, o deputado estadual Emídio de Souza (PT) disse que não vê espaço para a entrada de França na corrida ao Executivo paulista porque ele “tira muito mais votos do Haddad”, na avaliação do parlamentar. Já outro interlocutor petista, com acesso ao comando da campanha, afirma que França até poderia concorrer, embora ele duvide do “efeito prolongado da ideia”. Para ele, ao contrário do que ocorre na corrida ao Senado, em que as estratégias dos partidos estão mais amarradas, a decisão final cabe mais ao próprio França.Leia tambémGSI nomeia major ‘fulano de tal’ e tenente ‘cicrano de tal’ como seguranças de LulaDocumento incompleto foi assinado na sexta-feira (19) e publicado no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (22)O pessebista tem dito a aliados que dificilmente não teria de 10% a 15% numa eleição ao governo de São Paulo junto com Tarcísio e Haddad. Ele fala em transferência “no automático” de parte dos votos do atual governador, sobretudo entre servidores públicos descontentes, como policiais militares. Outro ponto levantado publicamente é o nível de conhecimento do estado e a proximidade que tem com prefeitos, outro público que demonstrou insatisfação com o Bandeirantes.A conta passa pelo potencial de ganhos em relação a Tarcísio contra a perda de tempo de propaganda gratuita e de outros recursos eleitorais oferecidos pela coligação com o PSB. Com o aliado arriscando a candidatura ao governo, a chapa petista ficaria restrita ao PSOL, Rede e PDT, além de PV e PCdoB, legendas com as quais o partido de Lula está federado e obrigatoriamente concorrem juntas, e eventuais “partidos nanicos” de esquerda.Outra consequência seria inviabilizar a distribuição de suplentes ao Senado de maneira cruzada, ou seja, candidatos desses partidos ficam impossibilitados de compor com o nome do PSB, que se encaminha para ser a ex-ministra do Planejamento Simone Tebet. Restariam apenas as duas suplências de Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente, que tenta se consolidar para a segunda vaga do grupo político com o apoio de PSOL e PDT.De qualquer forma, o PT não acredita em uma candidatura do PSB à revelia dos interesses do presidente Lula. A sigla pretende acertar dois candidatos ao Senado e entregar o posto de vice de Haddad ao nome que sobrar. O presidente, por sua vez, sinalizou internamente que gostaria de contar com França ao lado de Haddad numa chapa única, mas ainda não encaixou as peças no tabuleiro estadual.Desconfiança entre alasO atraso na definição tem dado margem para desconfiança entre aliados. Cresce o sentimento, nos bastidores, de que o PT não teria pressa em resolver porque são os outros partidos que estão em conflito interno. Do ponto de vista prático, a demora também impede a estruturação de grandes eventos de campanha, que já ocorreram três vezes do lado de Tarcísio com os membros da chapa estadual e Flávio Bolsonaro.No PSB, antes de sugerir novamente a ida às urnas para o governo, França passou a colocar em dúvida a candidatura de Tebet, sua companheira de partido, mesmo com o direcionamento claro ao Senado dado a ela no momento de filiação e da troca de domicílio eleitoral para São Paulo, cargo que ele também almeja. O entorno de Marina Silva, por sua vez, admite que a disputa só não tem sido mais agressiva e em público em razão de um pedido direto da ex-ministra, que confia numa solução menos conturbada para o impasse.Pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de abril mostrou Tarcísio na liderança com 38% das intenções de voto, contra 26% de Haddad. Kataguiri e Serra somaram 5% cada, enquanto 13% não souberam responder e outros 13% anunciaram voto em branco ou nulo. Ou seja, se o pleito ocorresse naquele momento, os adversários somados não chegariam ao percentual do atual governador, o que sinaliza uma possibilidade de vitória em primeiro turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais.Um mês antes, o Datafolha também apontou para esse cenário. Tarcísio marcou 44% e igualou a soma de Haddad (31%), Kataguiri (5%) e Serra (5%), mais o cientista político Luiz Felipe D’Ávila (3%), que descartou ser candidato pelo Novo.Tendência de apoioO resultado consolidou entre os petistas a preferência pelo ex-ministro da Fazenda, que se mostrou mais competitivo do que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Por outro lado, elevou as preocupações com o palanque de Lula no estado. O anúncio ocorreu dias depois, em São Bernardo do Campo.Pelo lado de Tarcísio, diante do afunilamento da disputa, aliados já falam em trabalhar para elegê-lo no primeiro turno. Correligionários apontam que, como os votos não estarão dissipados entre diversos atores, a primeira fase da votação poderá repetir o cenário do segundo turno de 2022, quando Haddad marcou 44,73% e Tarcísio se consagrou vencedor com 55,27%. Tarcísio parte de uma aliança ampla, que envolve siglas tradicionais em São Paulo, como PP e MDB, além do PL de Jair Bolsonaro e do PSD de Gilberto Kassab.Após anunciar a desistência, Paulo Serra não cravou apoio da Federação PSDB-Cidadania a Tarcísio, mas disse que a tendência é assumir essa posição por se identificar com os projetos do atual governador e “por uma questão de raia política”. Uma aliança com Haddad, por outro lado, seria difícil por conta de os tucanos serem adversários históricos do PT. Kataguiri afirma que o anúncio de outro candidato ainda está em debate no partido Missão e descarta apoio à dupla.A eleição ao governo de São Paulo foi decidida em primeiro turno em três ocasiões: com José Serra, em 2006, e com Geraldo Alckmin, em 2010 e 2014. Eram mandatos de continuidade, assim como Tarcísio, em meio à onda tucana que governou o estado por 28 anos consecutivos. Nas três eleições com resultados precoces, o PSDB enfrentou partidos historicamente competitivos no estado, como MDB, PSB e PP, além do próprio PT, o que não deve ocorrer agora.The post PT e PSB vivem impasse em SP para evitar subida de Tarcísio e temem impacto em Lula appeared first on InfoMoney.
