“Rei da Boleia”, prêmios: as estratégias da G10 para combater falta de motoristas

Blog

O Brasil tem mais caminhoneiros acima de 60 anos do que abaixo de 30. Para a G10, maior transportadora de grãos do mundo, esse desequilíbrio aponta para um problema que tende a se agravar: atrair e reter motoristas enquanto a profissão envelhece e perde espaço entre os mais jovens.Aplicativos de transporte urbano disputam essa mão de obra antes mesmo que ela chegue às estradas. A perspectiva de avanço dos caminhões autônomos também influencia a percepção sobre o futuro da carreira, embora Claudio Adamuccio, diretor-presidente da G10, não veja essa tecnologia como solução viável para o Brasil nas próximas décadas.Há ainda uma mudança dentro das próprias famílias.“Há uma diminuição de interesse dos pais em incentivar o filho a continuar sendo motorista”, afirma Adamuccio ao podcast Do Zero ao Topo, apresentado por Mariana Amaro. “Se a gente não resolver isso, teremos um apagão logístico.”A resposta da G10 passa por reconhecimento, segurança e participação da família. No topo dessa estratégia está um prêmio anual em que o melhor motorista pode receber aquilo que sua família mais sonha.Como funciona o Rei da Boleia da G10Uma vez por ano, a G10 escolhe o Rei da Boleia, título dado ao motorista com melhor desempenho em critérios de qualidade e segurança.A avaliação acontece mês a mês e considera fatores como postura, velocidade, tempo de descanso e desempenho geral. Para o ranking anual, entram os dez melhores meses de cada motorista. O mês de férias e eventuais licenças ficam de fora.Cada operação – como combustíveis, grãos e baús – seleciona seus finalistas.Eles passam por três dias de provas acompanhados por um técnico de segurança. Ao final, é escolhido o melhor motorista do ano.O prêmio? É o que ele sonhar.Veja mais: Águia Branca: de um ônibus comprado por acaso a R$ 23 bi de receitaE também: Facchini: da produção artesanal de carroceria a líder do setor com R$ 4 bi em receita O prêmio não tem valor fixoA G10 não estabelece previamente o que o vencedor receberá.Antes da decisão, as equipes de RH e comunicação procuram discretamente a família dos finalistas para descobrir quais são seus principais desejos.O motorista sabe que existe uma premiação, mas não sabe qual será.“No último ano, o sonho da esposa era a quitação de um apartamento que tinha mais de 140 parcelas pela frente e o sonho do marido era fazer o refit de um carro antigo”, conta Adamuccio.A empresa decidiu atender aos dois pedidos.“Eu falei: vale a pena fazer os dois sonhos. Então, foi realizado o sonho do casal.”O vencedor permanece como Rei da Boleia durante 12 meses. No ano seguinte, a disputa recomeça.Veja mais: A empresa que cresceu cinco vezes na pandemia fazendo o contrário das concorrentesE também: A estratégia da NB Steak para atrair 20% mais clientes vendendo ‘menos’ Por que a G10 envolve a família dos motoristasO Rei da Boleia é a parte mais visível de uma política de reconhecimento que começa antes do prêmio anual.Todos os meses, os 15 motoristas com melhor desempenho em cada operação recebem premiações. Os finalistas do prêmio anual também recebem reconhecimento, mesmo quando não são coroados.Outra iniciativa envolve diretamente a família do profissional.A esposa recebe um cartão de compras recarregável. Se o motorista cumprir os critérios de segurança – como não receber multas, respeitar os limites de velocidade e cumprir corretamente pernoites e períodos de descanso –, recebe um crédito mensal.“A esposa nos ajuda na segurança do motorista”, explica Adamuccio.A lógica da empresa é que a percepção da família sobre a profissão influencia tanto a permanência do caminhoneiro quanto a possibilidade de uma nova geração considerar a carreira.“Vendo que a profissão de caminhoneiro pode ser boa e segura, a família passa a apoiar – e o filho que cresce nesse ambiente pode querer seguir o mesmo caminho.”Veja mais: Simpar: a história da maior empresa de logística do Brasil, que faturou mais de R$ 24 bilhões em 2022E também: Rodobens: como uma pequena concessionária virou um império automotivo, financeiro e imobiliárioA empresa também quis saber quem existe fora do caminhãoAlém de reconhecer o desempenho, a G10 decidiu conhecer melhor quem estava atrás do volante.Adamuccio pediu à área de comunicação que identificasse os hobbies dos motoristas.“Foi uma surpresa. Nós tínhamos maratonistas, medalhistas, gente com todos os tipos de coisas”, conta.Havia profissionais que empinavam pipa durante períodos de espera nos portos. Outros levavam uma bicicleta atrás da cabine para pedalar nas paradas.Um deles compra, todo ano, passagens promocionais, parceladas em dez vezes, para visitar parentes na Flórida.“As pessoas perguntam: motorista consegue ter hobby? Consegue ir para os Estados Unidos? Se ele for organizado e planejado, sim”, diz Adamuccio.As histórias deram origem a um filme exibido internamente e passaram a integrar um projeto chamado Memorial. Relatos do cotidiano dos motoristas também são publicados na revista e no site da empresa.“Quando se mostra isso, você motiva outros que não têm hobby a desenvolver um”, afirma. “E muda a forma como as pessoas, dentro e fora da empresa, enxergam quem está atrás do volante.”Por que faltam motoristas de caminhãoPara Adamuccio, reconhecimento e retenção atacam apenas parte do problema.A dificuldade também está na entrada de novos profissionais.Nas cidades, aplicativos de transporte de passageiros e pequenas cargas oferecem alternativas a jovens que poderiam seguir para o transporte rodoviário.Ao mesmo tempo, chegar à categoria E, necessária para conduzir carretas, exige investimento, tempo e disposição.Segundo Adamuccio, o número de novas habilitações nessa categoria fica abaixo do número de caminhões novos emplacados. Enquanto isso, os profissionais mais experientes se aproximam da aposentadoria.“Esse vai ser um problema cada vez mais crítico a cada ano”, afirma. “Já é crítico na Europa e nos Estados Unidos há décadas – e nunca se resolveu.”Caminhões autônomos não resolvem o problema no horizonte da G10Uma possível resposta à escassez de mão de obra seria a automação.Adamuccio, porém, não vê o caminhão autônomo como solução prática para o Brasil no horizonte que considera relevante.“Não vejo essa possibilidade nem em 10 ou 20 anos”, afirma.Na avaliação dele, o obstáculo não está na tecnologia.“Mesmo se preço do equipamento fosse competitivo, faltaria de infraestrutura. Oitenta, noventa por cento das rodovias do Brasil não permitem um caminhão autônomo circulando.”Para saber mais detalhes sobre o sucesso e estratégia da G10 Transportes, veja o episódio completo no Do Zero ao Topo. O programa está disponível em vídeo no YouTube e em sua versão de podcast nas principais plataformas de streaming como ApplePodcasts, Spotify, Deezer,  Spreaker,  Castbox  e  Amazon Music.Sobre o Do Zero ao TopoO podcast Do Zero ao Topo é uma produção do InfoMoney. A cada semana, convida mulheres e homens de destaque no mercado brasileiro para contar suas histórias, compartilhar os maiores desafios enfrentados ao longo do caminho e as principais estratégias usadas na construção do negócio.The post “Rei da Boleia”, prêmios: as estratégias da G10 para combater falta de motoristas appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *