Quando o mercado resolve se fixar em alguma coisa, o efeito cascata chega a ser avassalador. Foi o que se observou nos primeiros três meses de 2026, quando uma suspeita que já circulava nos últimos anos virou o pânico do momento: será que o SaaS será destruído pela ascensão da inteligência artificial e inovações como agentes e vibe coding?Olhando para os números, o frisson é mais do que justificado. Segundo um levantamento recente do SaaStr, empresas de SaaS não caíram em valor. Elas despencaram. Se em 2022 a maioria delas ainda tinha múltiplos de projeção preço/lucro na casa de 84x, em 2026 esse número foi para 22,7x, valor abaixo de empresas tradicionais listadas no S&P 500.No começo do ano, uma atualização do Claude, da Anthropic, foi o estopim de um frisson ainda maior, resultando em um esvaziamento de mais de US$ 300 bilhões em valor de mercado para empresas como Salesforce, Microsoft, Workday, ServiceNow, entre outras. A partir disso, nasceu um termo: SaaSpocalypse, o tal juízo final em que a IA será o balizador de quem vive ou quem morre no mercado de software, e no qual as incumbentes supostamente estão com os dias contados.Contudo, analisando para além do pânico coletivo, o que realmente é verdade e o que é apenas especulação nessa movimentação toda? Em conversa com investidores e fundadores, a reportagem do Startups ouviu visões divergentes sobre como a IA ainda vai impactar o mercado de SaaS, embora todos tenham um certo consenso — o de que nada será como antes.“As empresas de software sempre foram queridas pelos investidores porque eram previsíveis”, destaca William Cordeiro, managing partner no SaaSholic, fundo focado em software. Segundo ele, o sell-off de empresas tradicionais mostra que elas estão pressionadas a demonstrar como se reinventam em um mercado em rápida transformação. “Muitas delas ainda não conseguiram mostrar direcionamento de como se reinventar”, completa.Leia também: “Apocalipse do software” deixa investidor em busca de pechinchas, mas cautelosoUm exemplo citado por William é o da Salesforce, gigante do CRM que há alguns anos já vem se movimentando na direção da IA, especialmente com produtos como o Agentforce. Segundo os últimos resultados da companhia de Marc Benioff, parece que os ganhos estão aparecendo, com o novo produto já representando US$ 500 milhões em ARR para a multinacional, quadruplicando de tamanho a cada ano.William Cordeiro, managing partner no SaaSholic | Foto: divulgaçãoMesmo assim, há uma grande diferença em relação ao modelo tradicional por assento, no qual contratos eram mais previsíveis, diferentemente da precificação baseada em uso ou resultado, como é o caso da IA. No fim do dia, segundo o executivo do SaaSholic, a mudança no billing não deixa de ser uma aposta, sacrificando receita no curto prazo.“A Salesforce está fazendo o que tem que fazer para se atualizar. Mas se você tem um fundo de pensão, seu dever fiduciário é proteger e multiplicar esse patrimônio. Você vai vender a sua posição agora ou vai esperar para ver se a Salesforce vai conseguir se atualizar e crescer como antes? Ou vai investir em quem está em alta agora?”, dispara.Reação exagerada?Perguntados sobre a tal “morte do SaaS”, o consenso da maioria das fontes é que a reação do mercado foi um tanto exagerada. “Eu não compro muito a história de que o SaaS morreu e nem que o software morreu”, dispara o investidor Manoel Lemos, da HeyHo Ventures. “Mas eu concordo 100% que o software como a gente conhece morreu”, completa.Para Sidney Chameh, fundador da DGF Investimentos, um dos mais tradicionais fundos brasileiros de investimento em software, o mercado já passou por diversos pânicos, desde a época em que softwares ainda rodavam em mainframes monolíticos. “Já passamos por mainframe, bug do milênio, nuvem, terceirização total do software. A necessidade por aplicações sempre existiu, e ela sempre se adapta”, pontua.Sidney Chameh, sócio-fundador da DGF | Foto: divulgaçãoE, por falar em adaptação, para os fundadores, em um cenário regido pela IA, o ciclo de renovação dos negócios fica cada vez mais apertado. Rapha Avellar, fundador da BrandLovers, sentiu isso na pele. Pouco tempo após receber um aporte de R$ 35 milhões da Kaszek, a martech resolveu “matar” seu principal produto para criar uma nova oferta baseada em IA, o Creator Ads, uma decisão que gerou resultado no médio e longo prazo.Perguntado sobre sua visão em relação ao SaaSpocalypse, Rapha pontua que a IA se tornou uma “pedra no sapato” dos negócios tradicionais de tecnologia.“Até pouco tempo atrás, as grandes empresas de software estavam acostumadas a negociar em múltiplos altíssimos, o que implica que você está pagando por crescimento e fluxo de caixa que está lá na frente. Então, o que está acontecendo é basicamente que a IA está fazendo a gente reavaliar: quanto tempo dura uma vantagem competitiva no mundo moderno? Ou será que, de fato, existe alguma vantagem competitiva que dura?”, destaca Rapha.Rapha Avellar, fundador e CEO da BrandLovers | Foto: divulgaçãoPor outro lado, o fundador da BrandLovers admite que mesmo essa reavaliação do mercado não escapa de reações exageradas. “Acho que tem um pouco de histeria também. Acredito que negócios que têm efeitos de rede estabelecidos e credibilidade, com responsabilidade pelas transações que executam, têm mais chances de durar”, avalia.Leia também: O que diz o “relatório de IA do fim do mundo” que fez Wall Street afundar de novoInovação x credibilidadeEm um possível novo mar de aplicações e agentes que podem surgir a partir da inteligência artificial, as grandes ainda têm algo relevante a seu favor: reputação e dados, o chamado “system of record”.“Se você é o system of record do seu cliente, tudo acontece lá. Você precisa abrir o sistema para saber o que está acontecendo com a empresa. Tem um valor enorme nisso. Mas se alguém cria uma solução agêntica que, via APIs, lê os dados no system of record e executa a tarefa, esse cara captura muito mais valor”, afirma William Cordeiro.Para Daniel Heise, do DGF, essa nova captura de valor por meio da IA e agentes representa uma nova ordem de magnitude para os softwares. “Acho que a capacidade de escala está aumentando. As empresas têm a oportunidade de capturar muito mais valor com a IA, vendendo não apenas a ferramenta, mas sim a capacidade completa de trabalho, cobrando por resultado”, afirma.É sob essa lógica que os SaaS que mais sofreram foram os de empresas como Workday, Atlassian e Asana, que atuam em uma camada transacional. Segundo as fontes ouvidas pelo Startups, essas aplicações menos sofisticadas no uso de dados devem ser as que mais vão sofrer com o aumento do uso de agentes.“Pensa em uma empresa com um turnover alto de funcionários, que abre 500 vagas por mês e tem pessoas para analisar currículos. Com mais IA, elas precisarão de menos assentos para esse trabalho. Além disso, esse é o tipo de atividade que será facilmente substituído por agentes, então não faz mais sentido cobrar licença por funcionário”, avalia Daniel Chalfon, partner na Astella.Daniel Chalfon | Foto: divulgação“As empresas mais ameaçadas são aquelas que não geram ROI claro e têm soluções facilmente replicáveis. Principalmente produtos muito simples, determinísticos ou com baixa barreira tecnológica. Esses são os que a IA consegue substituir com mais facilidade”, completa Henrique Uehara, sócio no DGF.Como sobreviver ao SaaSpocalypse?Eis que chegamos à questão inicial desta matéria. Em meio a tanta incerteza, pode o SaaS sobreviver, e como? Para William Cordeiro, a grande questão não é se o SaaS vai sobreviver, mas como os players que fizeram seu nome no boom do SaaS nos últimos 15 anos vão “cruzar o abismo”.“A camada intermediária do software se tornou o grande campo de disputa: os negócios que serão capazes de conectar IA e os grandes ‘systems of record’. É onde será possível conectar múltiplos sistemas e permitir que agentes executem workflows inteiros”, pontua Daniel Heise. “Se os incumbentes ficarem bobeando, esse system of record pode ser reconstruído do zero por IA”, completa.Para Guta Tolmasquim, fundadora e CEO da PurpleMetrics, não será possível “sobreviver” ao tal apocalypse do SaaS se o software ficar apenas como uma ferramenta que se abre e na qual o funcionário ainda precisa desempenhar todo o trabalho.“Se você entende que sua aplicação precisa ter todo o workflow da pessoa e resolver suas demandas, deixando o humano mais para um papel de editor, será preciso reavaliar o escopo que cada software terá na vida do cliente”, afirma Guta.Guta Tolmasquim | Foto: Divulgação/Purple MetricsAgora, a questão que ainda está para ser respondida é sobre quem conseguirá capturar esse valor. “Os investidores querem entender se as empresas estabelecidas vão conseguir fazer o catch-up tecnológico e continuar entregando para seus clientes ou não. Existem empresas que não conseguiram mostrar esse direcionamento. E aí o mercado pune”, afirma Daniel Chalfon.Por outro lado, as que conseguirem “passar a arrebentação” podem ver um crescimento inédito. “No longo prazo, de cinco a dez anos, acho que ainda estamos subestimando o mercado de SaaS. O modelo de software que vai existir lá na frente, e o tamanho que ele terá, talvez a gente nem consiga imaginar”, pondera Daniel Heise.“As pessoas não pararam de escutar música porque não compram mais CDs e escutam no Spotify. Na verdade, elas escutam mais música. As pessoas não vão deixar de comprar software porque a forma como ele é distribuído mudou. Vão comprar mais software”, completa William Cordeiro.Para fechar com a voz da experiência, Sidney frisa que a grande questão é como o modelo de SaaS pode e deve evoluir a partir de agora. “A gente não acredita que o software vai ser dizimado. Pelo contrário, seguimos investindo. O que importa é continuar resolvendo dores reais dos clientes. É o que sustenta o setor há décadas”, finaliza.Conteúdo produzido por Startups.The post Startups: Como sobreviver ao SaaSpocalypse? Investidores e fundadores opinam appeared first on InfoMoney.
