Acertar a maioria das operações está longe de ser o principal diferencial de um trader profissional. Mesmo nas mesas que movimentam bilhões de reais, perdas fazem parte da rotina e a taxa de ganho pode ficar pouco acima de 50%. O que separa sobrevivência e fracasso é a capacidade de limitar prejuízos, sustentar o processo e aumentar posições quando a leitura funciona.Leandro Cruz, tesoureiro na XP Inc.; Márcio Kieling, trader e influenciador; e Pam Semezzato, analista de investimentos CNPI-T da Clear Corretora, participaram do painel “O que todo trader de varejo quer saber do mercado institucional”, na Expert XP. Mediado por Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes e Pessoa Física da B3, o debate aproximou as rotinas do varejo e das mesas profissionais.Leia também:O que pode destruir seu legado? Especialistas explicam como proteger o patrimônioAcertar não bastaEmbora conte com estrutura, informação e tecnologia, o trader institucional continua exposto à incerteza. Por isso, nem os profissionais vencem todos os dias.Para Cruz, aceitar essa condição é indispensável antes de avaliar qualquer estratégia. “Ali é assim: apesar de ser um profissional, todo mundo é humano. E bons traders, excelentes traders, eles ganham por volta de 55% das vezes, 60% das vezes”, afirma.Nesse sentido, a consistência não nasce apenas da frequência dos acertos, mas da diferença entre o tamanho dos ganhos e das perdas. Assim, uma taxa superior a 50% pode não produzir resultado se os prejuízos crescerem sem controle. “No final do dia, o que vai definir se você é bem-sucedido ou não na profissão é você conseguir ganhar muito e perder pouco”, diz Cruz.Da mesma forma, Kieling sustenta que o trader de varejo pode ser lucrativo mesmo errando a maior parte das entradas, desde que preserve uma relação favorável entre risco e retorno.Portanto, tentar eliminar as perdas desvia o foco daquilo que realmente pode ser controlado. “Você, de fato, não precisa acertar todas as operações. Você precisa controlar o seu risco”, destaca.Leia também:Alcoforado: Os mais ricos compram confiança e segurança, não só produtos financeirosProcesso contra impulsoPara Semezzato, aprender análise técnica ou identificar um ponto de entrada representa somente a porta de acesso ao mercado. No entanto, repetir a estratégia sem trocar de método após cada resultado negativo exige uma disciplina muito maior. “Talvez o maior obstáculo para o trader de varejo, como eu vejo, é fazer todo dia a mesma coisa, ser consistente no operacional”, afirma.Além disso, a busca por ganhos diários pode levar o operador a circular entre salas e estratégias, sempre à procura de uma abordagem sem perdas.Com isso, lucros pequenos passam a conviver com prejuízos maiores, desequilibrando o resultado acumulado. “Acho que essa é uma das ilusões ali do mercado, de começar ganhando sempre, tendo sempre ganhos. Acho que isso realmente não existe”, alerta.Por outro lado, conhecer as estatísticas do próprio operacional ajuda a atravessar sequências negativas sem abandonar o plano justamente antes de uma operação capaz de compensá-las. Nesse caso, o resultado isolado perde força diante de uma amostra mais ampla. “O resultado da operação do dia não diz o resultado do longo prazo”, salienta Semezzato.Leia também:Crédito caro e seletivo empurra PMEs para R$ 80,6 bilhões em dívidas, mostra SerasaLimite antes da perdaNo ambiente institucional, a disciplina não depende somente da força de vontade de cada operador. A tesouraria utiliza tecnologia, sistemas e limites definidos a partir de quanto a companhia aceita perder em cada linha. “Não tem como fugir de tecnologia, sistema, limites bem estabelecidos”, explica Cruz.Além disso, o controle acompanha o resultado das mesas em tempo real e estabelece diferentes instâncias de defesa. Desse modo, uma perda relevante deixa de ser uma decisão individual e passa a seguir políticas previamente aprovadas. “A gente tem bastante sistema, bastante política, tem uma área de risco bem grande. Tem primeira, segunda, terceira linha de defesa”, detalha.Já no varejo a liberdade de continuar operando pode transformar uma sequência comum de perdas em um prejuízo fora do plano. Semezzato relata que o impulso de tentar apenas mais uma operação persistia mesmo depois de o limite diário ser alcançado. “Eu passei por isso, mas aprendi que o ‘agora vai’ não funciona e que você tem que respeitar”, reconhece.Leia também:Copa impulsiona varejo, que cresce 6%, com avanço do Pix e compras presenciaisMercado não persegueA comparação entre os dois ambientes também enfraquece a ideia de que instituições operam de forma coordenada contra o varejo. Dentro de uma mesma tesouraria, profissionais podem sustentar leituras contrárias sobre o mesmo ativo. “Têm diversas vezes que os traders estão em posições opostas, o que também desmistifica um pouco essa questão de varejo contra institucional”, observa Cruz.Além disso, fundos, tesourarias, estrangeiros e pessoas físicas cumprem papéis complementares na formação de liquidez. Quanto maior a diversidade de participantes, mais fácil tende a ser entrar ou sair de uma posição sem provocar distorções relevantes. “Então, o mercado líquido é um mercado saudável, sem dúvida”, destaca o tesoureiro.Nesse contexto, atribuir perdas à corretora, à RLP ou a um grande participante pode funcionar como proteção emocional contra a responsabilidade pela própria execução.Para Semezzato, esse mecanismo impede a revisão objetiva do erro e mantém o trader preso ao mesmo comportamento, embora a ferramenta envolva diferentes participantes. “A RLP é uma ferramenta que beneficia todos, a XP, a B3, o trader”, afirma.Leia também:Inflação da alta renda roda acima do IPCA, diz índice inédito da ZeomDisciplina no longo prazoMesmo com estrutura institucional, anos negativos e janelas prolongadas de perda não desaparecem. Consequentemente, avaliar o processo somente pelo último pregão cria uma leitura incompleta da estratégia. “Todo mundo perde dinheiro, perde dinheiro, por mais sofisticado que seja. Eu lá tive anos incríveis, mas tive anos ruins também”, recorda Cruz.Assim, a resiliência defendida no painel não significa insistir cegamente em qualquer método. Ela depende de um processo estudado, estatisticamente sustentável e executável sob pressão. “No final do dia, se você tem um bom processo e bastante disciplina, aí você acredita que o que você está fazendo é a melhor forma de você fazer”, argumenta o tesoureiro.Por isso, a mensagem final desloca o objetivo de encontrar uma estratégia invencível para a construção de uma rotina que sobreviva aos dias ruins. Em vez de prometer ganhos constantes no day trade, o método precisa permitir repetição e controle. “Só não foque em uma estratégia que ganha todo dia, foque em construir um processo que você consiga executar todo dia”, conclui Semezzato.Leia também:Doações de imóveis batem recorde com expectativa por alta de imposto; veja o que mudaThe post Trader profissional ganha em apenas 55% a 60% das vezes, diz tesoureiro da XP appeared first on InfoMoney.
