O banco de investimentos UBS-BB cortou a recomendação das ações da MRV (MRVE3) de compra para neutro e reduziu o preço-alvo de R$ 12 para R$ 7. Em relatório divulgado nesta quarta-feira (3), os analistas explicam que a decisão foi motivada pela deterioração das projeções macroeconômicas brasileiras, que indicam taxas de juros mais altas por um período prolongado, além do aumento nos riscos de provisões por perdas na Resia, braço imobiliário do grupo nos Estados Unidos. Os analistas optaram por manter o múltiplo de lucros projetado de um ano à frente inalterado em 6 vezes, mas concluíram que a atratividade do papel diminuiu significativamente em relação aos concorrentes do setor de construção civil.Em um dia também negativo para o mercado, as ações da MRV registraram queda de 3,54%, a R$ 5,72. Além do corte de recomendação, o documento detalha que a decisão foi fundamentada por uma piora projetada no crescimento dos lucros da operação nacional. Segundo o texto, há uma previsão de cenário adverso no desempenho doméstico da companhia.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai 1% com peso de tarifas dos EUA e geopolíticaBolsas dos EUA recuam com guerra no Oriente Médio pesando sobre petróleo e títulos públicos“Nosso rebaixamento para neutro é sustentado por uma perspectiva pior para o crescimento do lucro líquido na operação do Brasil em meio a um cenário mais desafiador para margens e resultados financeiros”, diz o relatório. Paralelamente, os analistas adotaram uma postura bem mais defensiva com a subsidiária norte-americana, reduzindo as projeções para a marca devido à forte “possibilidade de uma nova baixa contábil” em ativos imobiliários.Conforme aponta o UBS-BB, as novas premissas macroeconômicas para o ambiente doméstico pesaram diretamente sobre as contas da holding. Os analistas elevaram a estimativa da taxa Selic para 13,50% até o final de 2026 e para 11,25% até o encerramento de 2027. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) também foi reajustado para cima, com projeções de 4,8% e 4,3% para os mesmos períodos. De acordo com o documento, esse encarecimento do custo de carregamento das dívidas corporativas deve provocar um impacto severo sobre o resultado líquido consolidado.Foco nos lucros e pressão financeiraUm dos principais pontos sobre a análise da MRV é uma mudança estrutural importante na dinâmica de avaliação da construtora. Segundo o documento, a tese de investimento deixou de ser pautada na capacidade de caixa da empresa para se concentrar totalmente na entrega de resultados nominais. Os analistas relembraram que na última vez que escreveram sobre a companhia, a capacidade de conversão financeira havia melhorado muito, mas as estimativas foram um erro “fora da curva”. “Continuamos a acreditar que o fluxo de caixa operacional persiste e se acelera ao longo de 2026 e 2027. No entanto, nossas premissas de lucro líquido durante esse período provaram-se incorretas. Havíamos antecipado um processo de desalavancagem mais rápido, impulsionado por uma redução mais agressiva das taxas de juros, juntamente com uma recuperação da margem bruta na faixa de 60-70 pontos-base, o que pode não se concretizar dado um ambiente de custos mais difícil”, diz a instituição. Leia tambémRenda Fixa Hoje: taxas de CDBs, LCIs e LCAs na XP com dados de empregos nos EUAVeja as taxas de investimentos prefixados, pós-fixados e híbridos em renda fixaPor conta desse cenário pressionado, os analistas revisaram o ritmo de expansão para a MRV, reduzindo a velocidade de recuperação esperada. A projeção agora gira em torno de uma evolução de 30 a 40 pontos-base por trimestre. De acordo com o texto, essa nova estimativa está “mais em linha com as expectativas do mercado”, o que consequentemente justifica a recomendação atual. Outro fator para o resultado financeiro da construtora, segundo o relatório, será a necessidade de recorrer a vendas de recebíveis muito maiores para os anos de 2026 e 2027, estimadas agora em R$ 2,1 bilhões e R$ 1,8 bilhão, respectivamente. A expectativa é que esse volume pese de forma relevante em seus resultados financeiros.Segundo o estudo do UBS-BB, essa aceleração na venda de carteiras de recebíveis é vista como uma saída necessária para cumprir amortizações trimestrais que variam de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões na operação brasileira, evitando o estouro de cláusulas restritivas de endividamento (covenants). Porém, o custo dessas transações é alto. Com essas revisões, o lucro líquido estimado para a operação da MRV foi cortado em 34% para 2026 (para R$ 650 milhões) e em 31% para 2027 (para R$ 854 milhões). No consolidado da holding, o lucro projetado ficou em R$ 305 milhões e R$ 779 milhões. Sob essa ótica, o banco acrescenta que a MRV “aparece em um nível descontado de P/L (Preço/Lucro) para 2027 (4,3 vezes), mas relativamente menos atraente em comparação com a Tenda (4,9x P/L) e Plano&Plano (3,5x P/L), dada a maior previsibilidade de lucros e menor complexidade destas últimas”.Problemas com a ResiaNo braço internacional da companhia, os desafios operacionais da Resia continuam pressionando o balanço de forma negativa. Os analistas classificaram a situação financeira da subsidiária como fraca e sem horizonte claro de melhora. “A perspectiva financeira da Resia permanece fraca, com prejuízos contínuos e visibilidade limitada sobre a recuperação dos lucros”, diz o relatório. O documento ressalta que o fraco desempenho operacional é reflexo direto de uma combinação de fatores de mercado, causados por “locações mais lentas, aluguéis efetivos mais fracos e taxas de juros mais altas”. O UBS-BB projeta para a Resia novos prejuízos líquidos (ex-baixa contábil) de R$ 299 milhões e R$ 20 milhões para 26 e 27, respectivamente.O documento do banco chama a atenção para o forte alongamento nos prazos de desinvestimento dos empreendimentos após o início da fase de locação. Historicamente, o ciclo médio levava 4 trimestres, mas o projeto Tributary exigiu 10 trimestres para ser vendido. Entre os ativos em carteira, conforme apontam os analistas, os residenciais Rayzor Ranch e Ten Oaks registram média de 9 trimestres em maturação, enquanto o Memorial atinge a marca de 12 trimestres na fase de locação.Leia tambémXP eleva projeção da Selic a 14% e inflação em 5,3% para o fim de 2026Perspectivas de inflação para o Brasil deterioraram e devem pressionar o Banco Central a pausar antes o ciclo de corte de juros, retomando em 2027.Revisões nas marcasO reajuste de estimativas feito pelo UBS-BB também atingiu as outras marcas da holding. Para a Luggo, as projeções de prejuízo líquido aumentaram para R$ 29 milhões em 2026 e R$ 47 milhões em 2027, refletindo o adiamento da venda de três projetos estabilizados para o quarto trimestre deste ano.Já na Urba, os passivos de cessão subiram para R$ 726 milhões. Em vez de registrar os lucros que haviam sido projetados anteriormente para a loteadora, os analistas explicam que a fraqueza nas receitas financeiras da subsidiária forçou uma revisão completa dos números corporativos. “Estamos revisando nossas estimativas para o lucro líquido, esperando agora prejuízos líquidos de R$ 16 milhões em 2026 e R$ 8 milhões em 2027”, diz o relatório.Fatores de virada para a tesePara que a recomendação das ações da construtora volte a ficar positiva, os analistas afirmaram que o mercado precisa recuperar a confiança nos resultados futuros da holding, exigindo especificamente “uma perspectiva mais clara com visibilidade aprimorada em torno do lucro líquido recorrente”, conforme o texto. Na prática, de acordo com o banco, uma reviravolta para um cenário otimista demandaria inflação controlada, queda acelerada de juros no ambiente doméstico e internacional, além da venda dos prédios da Resia sem descontos agressivos. O papel também ganharia atratividade caso passasse a negociar com um “desconto significativo em relação aos seus principais pares”.Em contrapartida, os analistas listaram as ameaças que podem azedar a tese de investimentos, apontando que o cenário piora caso a inflação de insumos suba ou se houver uma perda de fôlego nas margens operacionais da MRV no Brasil. Segundo o relatório, o risco aumenta diante de uma eventual “configuração de deterioração mais acentuada no ritmo de recuperação das margens”. View this post on Instagram The post UBS-BB corta recomendação para MRV (MRVE3) após piora nos juros; ação cai mais de 3% appeared first on InfoMoney.
