Dona de um gigantesco complexo de produção de minério de ferro em Carajás, no sul do Pará, a Vale vislumbrou valor futuro em uma operação de pequeno porte situada na mesma região, tocada pela mineradora Ligga S.A., que foi fundada e é controlada pelo grupo Santa Elina. A companhia assinou, na sexta-feira, 18, um acordo considerado estratégico, pelo qual adquire uma participação acionária minoritária de 30% da Ligga. Ao mesmo tempo, firmou um contrato exclusivo (offtake) que garante a compra de toda a produção atual e futura da mineradora por longo prazo.A Ligga tem instalações de produção de minério de ferro da mina Ferro Sul, localizadas entre os municípios de Curionópolis e Parauapebas.As reservas, a mina e a área de produção da Ligga ficam aproximadamente a 10 quilômetros da Estrada de Ferro Carajás (EFC), ferrovia operada pela Vale que transporta minério produzido em Carajás para seu terminal portuário Ponta da Madeira, em São Luís, de onde é embarcado em grandes navios rumo a mercados do exterior.O valor do negócio não foi revelado pelas duas companhias. Procurada, a Ligga informou que não comenta a operação. Já a Vale emitiu nota confirmando o acordo e fornecendo mais detalhes.Atualmente, a Ligga produz 2 milhões de toneladas por ano do minério do tipo sinter-feed (conhecido como finos), que já é vendido para a nova sócia. Conforme a nota da Vale, o plano, com o acordo, é ampliar o volume da mina para 8 milhões de toneladas em dois anos.Leia tambémVale (VALE3) mira cobre enquanto minério perde força e dividendos ficam mais contidosMineradora enfrenta um ambiente ainda desafiador, principalmente diante da fraqueza dos preços do minério de ferro e dos fretes elevadosO projeto de expansão, que está em fase inicial de implantação, já conta com licença de instalação da Semas (Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Estado do Pará). Estão previstas nova planta de beneficiamento, obras de infraestrutura e a construção de uma solução ferroviária, prevista para entrar em operação em junho de 2028, eliminando o transporte por caminhões do minério até a EFC.No plano de expansão, serão feitos investimentos da ordem de R$ 500 milhões, a partir do aporte da Vale e da geração de caixa da própria Ligga, apurou o Estadão com pessoas que atuam no setor e conhecem o projeto. Os recursos serão aplicados principalmente em um ramal ferroviário de 9 km. ligando a mina até a ferrovia da Vale, e na nova instalação de concentração e beneficiamento do minério.No comunicado divulgado, a Vale destaca que “a operação reforça a flexibilidade do portfólio da Vale na região de Carajás (PA) ao garantir acesso ágil a volumes minerais estratégicos. A parceria segue um modelo de baixa intensidade de capital, permitindo incorporar reservas consolidadas sem os investimentos e prazos regulatórios de novos projetos greenfield.”O Estadão apurou que as reservas certificadas de minério de ferro da Ligga são da ordem de 1,5 bilhão de toneladas, o que deve também ter atraído o interesse da Vale para investimento no negócio. Essa riqueza permitirá, no futuro, novas ampliações de produção e até investir em outro tipo de minério, o itabirito, na mesma jazida, e vir a produzir pellet-feed, que requer tecnologia mais sofisticada.O pellet-feed, de alto teor (em torno de 67% de ferro), é mais utilizado em processos chamados de redução direta para produção de aço. Esse produto tem atualmente grande demanda no mercado mundial por parte de siderúrgicas que buscam reduzir a emissão de CO2 na produção de aço. É a onda conhecida como descarbonização do aço.Se do lado da Vale, o acordo tem o fator estratégico com compra de minério de qualidade e acesso a uma reserva mineral enorme que está em seu quintal, para a Ligga o negócio propicia acesso à logística (ferroviária e portuária) e garantia de venda para uma companhia com penetração nos principais mercados do mundo com sua estrutura comercial.O negócio integra a produção da Ligga ao corredor logístico existente da nova sócia: a ferrovia EFC e o terminal de Ponta da Madeira. Com isso, irá aproveitar a eficiência logística da Vale em escala global.A Vale é a maior mineradora de ferro do mundo, com produção de 336 milhões de toneladas em 2025 nos dois sistemas operacionais: o Sul, em Minas Gerais, e o Norte, em Carajás. Somente o volume extraído no complexo Carajás atingiu 177,5 milhões de toneladas – a quase totalidade de minério sinter-feed.A companhia brasileira compete globalmente com as também gigantes da mineração Rio Tinto, BHP, FMG (Fortescue Metals Group) – as três na Austrália – e Anglo American (África do Sul e Brasil).Origens e expansão passo a passoA entrada do grupo Santa Elina no negócio de minério de ferro se deu com a criação da Rio Minas Mineração, em 2011. A empresa, sediada em Cuiabá, incorporou todos os direitos minerais para exploração de minério de ferro do grupo no Pará, na região de Carajás.Dez anos depois, a Rio Minas foi renomeada Ligga S.A., decorrente da formação de uma joint venture entre Santa Elina e o grupo Cosan, que visava uma integração do seu projeto de terminal portuário em São Luís com as reservas de minério de ferro da Ligga.O empreendimento não evoluiu, principalmente em razão da entrada da Cosan no capital da Vale em 2022, adquirindo 4,9% das ações. Neste ano (2026), os acionistas da Santa Elina e da Cosan decidiram desfazer a joint venture. A joint venture, na época, previa criar uma companhia mineradora de ferro apta a produzir cerca de 10 milhões de toneladas por ano, a partir de 2025, e tinha plano de triplicar o volume.A mina da Ligga começou a operar em 2022, crescendo aos poucos, de 600 mil toneladas para 1 milhão e depois 2 milhões de toneladas. Ao alcançar o novo patamar de produção, em 2028/2029, que será alavancado com a entrada da Vale no capital, a mineradora se tornaria uma empresa com receita na faixa de US$ 800 milhões pelos preços atuais de referência do minério na China, maior consumidor da commodity no mundo. No entanto, a fórmula do preço de venda é outra, pois o minério é entregue à Vale na ferrovia.Mesmo com a mina quadruplicada, a Ligga, sem a estrutura da nova sócia, teria dificuldades para competir no mercado internacional. O frete marítimo, com a guerra EUA-Irã, subiu muito, afetando produtoras de pequeno e médio porte. Algumas já anunciaram paralisação de parte de suas minas. Estar na estrutura logística e comercial da Vale é um benefício para a Ligga. E juntas poderão fazer planos para crescimento da produção, disse um especialista ao Estadão.O grupo Santa Elina pertence à família Brito e foi fundado na década de 70 por Paulo Brito, inicialmente focado na exploração de ouro. Hoje, a família é a maior acionista da mineradora de ouro Aura Minerals, que é listada na Nasdaq (Nova York) e na B3 (BDR).A Santa Elina, além do minério de ferro no Pará, tem produção de zinco e chumbo em Rondônia.The post Vale faz investimento estratégico em minério em Carajás ao comprar 30% da Ligga appeared first on InfoMoney.
