Quando o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou à TV estatal na semana passada que era “muito difícil” conseguir falar com o líder supremo do país, o comentário alimentou novas especulações sobre o paradeiro de Mojtaba Khamenei, que não faz aparições públicas desde que assumiu a autoridade máxima do país em março. Na segunda-feira, porém, Pezeshkian disse à emissora oficial que os dois haviam realizado recentemente uma reunião que durou “sete ou oito horas”.“Foi uma reunião muito boa”, afirmou Pezeshkian a um repórter durante um encontro de líderes de facções políticas em Teerã. Segundo ele, os dois discutiram formas de enfrentar a deterioração das condições de vida da população iraniana e compartilharam preocupações sobre a situação do país. De acordo com o presidente, a principal prioridade de Khamenei é a “unidade e coesão” nacionais.A declaração ocorreu após semanas de disputas públicas em Teerã sobre a condução da guerra. Integrantes da ala mais radical do regime chegaram a pedir a renúncia de Pezeshkian por apoiar um acordo de paz fragilizado com os Estados Unidos. Dias antes, sob forte pressão, o presidente havia afirmado em uma longa entrevista à TV que não pretendia mudar de posição.Mojtaba Khamenei ficou ferido no mesmo ataque aéreo israelense de 28 de fevereiro que matou seu pai e antecessor, o aiatolá Ali Khamenei. A ofensiva marcou o início da guerra entre EUA, Israel e Irã.A extensão dos ferimentos é desconhecida. Na segunda-feira, Pezeshkian afirmou que o líder supremo está em “perfeita saúde”. Ainda assim, sua ausência da vida pública criou um vácuo político que tornou mais visíveis os conflitos entre facções, uma característica histórica do sistema iraniano.Leia tambémConflito entre EUA e Irã: mais dois navios são atacados no Estreito de OrmuzEUA alertam Irã para aumento de pressão econômicaVance: EUA pressionam Irã e utilizam meios diplomáticos para estabilizar petróleoVance afirmou estar confiante de que o confronto terminará com os Estados Unidos “em uma posição mais forte”Durante quase 40 anos no poder, Ali Khamenei frequentemente atuava como árbitro das disputas internas. Como decisão final em todos os assuntos de Estado passava por ele, sua aprovação era essencial para transformar propostas em políticas oficiais, incluindo o acordo nuclear de 2015 com o Ocidente, amplamente rejeitado pelos setores mais conservadores. Ele também administrava conflitos entre conservadores e radicais, incluindo uma disputa entre o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad e Ali Larijani, chefe de segurança morto em um ataque aéreo em Teerã em março.Ainda não está claro se seu filho possui a mesma autoridade.“Mojtaba Khamenei não faz aparições públicas, não é facilmente acessível e, segundo relatos, se comunica com altos funcionários por meio de intermediários. Como resultado, é muito mais difícil para ele oferecer liderança clara e decisiva ou resolver rapidamente divergências dentro da elite política”, disse Arman Mahmoudian, pesquisador da Universidade do Sul da Flórida.O faccionalismo é visto como um elemento permanente da política iraniana. Embora alguns o considerem apenas superficial, a guerra expôs tensões de forma mais aberta, com confrontos públicos sobre os rumos do conflito.Autoridades, incluindo Khamenei, têm defendido repetidamente a unidade, não apenas entre a população iraniana, profundamente marcada pelos efeitos da repressão às manifestações de janeiro e dos bombardeios de EUA e Israel iniciados um mês depois, mas também dentro do próprio sistema político.“Sempre houve um grupo que defende um acordo estratégico com os Estados Unidos e outro que deseja uma guerra sem fim contra os EUA”, disse Saeed Laylaz, economista e ex-conselheiro de Pezeshkian. “A liderança mudou e não aparece em público. Isso abriu espaço para que algumas pessoas avancem e passem a se manifestar.”A batalha nas redesAs redes sociais e a TV estatal se tornaram o principal palco da disputa entre pragmáticos, como Pezeshkian e o chanceler Abbas Araghchi, e clérigos e políticos ultraconservadores contrários a qualquer aproximação com Washington.Os pragmáticos, frequentemente associados ao conservadorismo moderado ou ao reformismo dentro do sistema iraniano, consideram inevitáveis as negociações com o Ocidente. Para eles, essa é a única forma de reduzir o isolamento econômico, melhorar o padrão de vida e atrair investimentos.Já os radicais argumentam que a aproximação ameaça os princípios fundadores da Revolução Islâmica de 1979 e sustentam que as tentativas de diálogo com o governo de Donald Trump apenas deixaram o Irã mais vulnerável aos ataques de Israel e dos Estados Unidos.Pezeshkian, responsável pela condução econômica do país, defende encerrar a guerra e obter um amplo alívio das sanções. Seus aliados acreditam que isso proporcionaria ajuda imediata a uma população que já enfrenta inflação elevada, desemprego e outras dificuldades agravadas pelo conflito.Os setores mais duros do regime, tanto na política quanto no alto clero, parecem alimentar boa parte das disputas internas. Eles rejeitam negociações com o governo Trump e questionam se a economia iraniana realmente necessita do alívio das sanções americanas.Um dos críticos mais agressivos, o clérigo ultraconservador Mohammad Bagher Kharazi, atacou Pezeshkian em julho, chamando-o de “lixo” e questionando a legitimidade de seu governo. Pezeshkian assumiu a Presidência após a morte de Ebrahim Raisi em um acidente de helicóptero em 2024.Em um vídeo publicado no Instagram no mês passado, cuja autenticidade não pôde ser verificada, Kharazi afirmou que a República Islâmica “não é mais eficaz” e que os iranianos deveriam adotar um “Estado islâmico”, em vez de um sistema baseado em eleições presidenciais e parlamentares.Ele também ameaçou “cercar todos os ministérios” em Teerã, alegando contar com o apoio de 250 mil seguidores.Outro crítico frequente é Saeed Jalili, ex-negociador nuclear e uma das principais figuras da facção ultraconservadora Paydari. Em discurso no funeral de Khamenei, em julho, ele defendeu que a vingança pela morte do líder fosse a principal prioridade do governo e criticou a busca por um acordo com os EUA para alívio das sanções.Não são apenas os radicais que tentam ampliar sua influência. O ex-presidente Hassan Rouhani, que perdeu espaço após o fracasso do acordo nuclear sob pressão americana, também voltou a divulgar vídeos para recuperar relevância política.Neles, alterna críticas aos EUA e a Israel, acusados de subestimar a força do povo iraniano, e ataques à ala radical, que ele descreve como “uma minoria que acredita que ampliar esta guerra acelerará a vinda do Mahdi”.Segundo Mahmoudian, as divisões dentro da teocracia iraniana são uma marca da política externa do país desde 1979.“O que mudou desta vez não é a existência dessas facções rivais, mas o grau em que suas divergências se tornaram visíveis e, possivelmente, mais intensas do que em crises anteriores”, afirmou.Sinais de controleEm um indicativo de que o novo líder supremo pode estar consolidando influência, os vídeos de Kharazi desapareceram de sua conta no Instagram até terça-feira, enquanto o Judiciário iraniano informou que ele foi convocado para prestar esclarecimentos.Um dia antes das declarações de Pezeshkian sobre o longo encontro com Khamenei, a TV estatal leu uma mensagem atribuída ao líder supremo anunciando a nomeação de Mohsen Rezaee, veterano da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e linha-dura conservador, para comandar o Conselho Supremo de Segurança Nacional, o principal órgão de segurança do país.Khamenei também confirmou uma série de novas nomeações militares, a maioria ligada à Guarda Revolucionária. O grupo elogiou a escolha de Rezaee e destacou seu papel na coordenação das políticas de segurança, diplomacia e economia.A reorganização reforça os setores mais duros que comandam a estratégia militar desde o início da guerra.Um assessor do novo chefe da Guarda afirmou à TV estatal na terça-feira que a nova equipe pretende adotar uma doutrina militar mais “ofensiva”, focada em operações fora do território iraniano.“Sempre que as condições forem favoráveis e a ordem for dada, devemos ser capazes de levar a operação ao território inimigo”, declarou Mohammad Reza Naqdi.Confiança crescenteA reformulação também sugere maior alinhamento em torno da Guarda Revolucionária e de sua resposta estratégica à guerra iniciada durante o governo Trump.Para Dina Esfandiary, chefe de geoeconomia do Oriente Médio na Bloomberg Economics, os setores mais radicais se sentem fortalecidos.“Eles acreditam que estão em vantagem e concluíram que a linguagem da intimidação funciona com Trump. Tudo isso faz parte de um processo de consolidação interna”, afirmou.Segundo ela, o sistema político parece relativamente alinhado sobre os próximos passos. Até mesmo Araghchi tem adotado um discurso mais duro sobre o Estreito de Ormuz, rejeitando pressões americanas e defendendo uma postura firme.Por enquanto, ambos os lados endureceram suas posições. Trump afirmou nesta semana que está reduzindo o tom das ameaças militares contra o Irã, mas pretende manter tempo suficiente o bloqueio naval em Ormuz para aumentar a pressão econômica e exigir novas compensações de Teerã, algo que a República Islâmica tende a rejeitar.O resultado é um impasse sem perspectiva clara de paz.Para Laylaz, apesar do aumento do ruído político, as principais figuras do poder iraniano continuam atuando de forma coordenada.“Os responsáveis pelas decisões, incluindo a Guarda Revolucionária, Araghchi, Pezeshkian e Mohammad Bagher Ghalibaf, têm agido com amplo consenso e mantido o processo em andamento”, disse.Avaliação semelhante é feita por Ali Vaez, vice-diretor do programa para Oriente Médio e Norte da África do International Crisis Group.“Há claramente maior coesão em torno da estratégia, mas isso não deve ser confundido com confiança de que ela terá sucesso”, afirmou.“Por enquanto, Teerã acredita que resistir e impor custos obrigou Washington a ajustar seus objetivos. O risco é que essa sensação de validação no curto prazo se transforme em excesso de confiança no longo prazo.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Onde está Mojtaba Khamenei? Ausência do líder alimenta disputas no Irã appeared first on InfoMoney.
